quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Apesar


Por muito tempo tentou não pensar. Porque pensar seria doloroso demais. Porque não podia se impedir de chorar e lamentar profundamente a vida que deixou de acontecer.
Exatamente como um aborto. Sim. Era triste porque não era só a perda. Era uma interrupção do vir-a-ser. Era nunca conhecer o que poderia ter sido. E isso era triste, imensamente triste. O peso de um jamais. O peso de um para sempre ao contrário. A dolorida verdade da vida que já não existia. Aquele aborto deixaria para sempre um espaço vazio, um espaço reservado a um colorido e a possibilidades infinitas que nunca tinham encontrado espaço pra ser de fato.
Tudo era um imenso silêncio. O vento já não soprava, e o deserto parecia tão maior. Aquele frio voltara, desde os primeiros momentos. Em algum lugar nevaria para sempre, e nada seria capaz de ser forte o suficiente pra aquecer.
E foi só então que ela chorou. Chorou a perda do aborto, que por tanto tempo tinha se anunciado, aquele aborto que estava anunciado desde a concepção, desde o primeiro instante onde aquela semente de vida tinha aparecido. Aquele choro que chovia. E em algum lugar da alma a chuva era torrencial.
Ela tinha se livrado de tantas correntes, de tantos cadeados, de tantas prisões. E no exato decisivo tempo, a porta foi escancarada, por um breve instante ela tinha estado vulnerável, alcançável, ela esteve ali, nua, de verdade, cheia de uma verdade que doía de tão intensa. Uma verdade que sangrava. A porta se abriu. E ela tinha esperado, e esperado. Até que o aborto aconteceu. Foi-lhe embora a vida, e como doía...
Sim, podem haver outras gestações, outras forma de vida, outras promessas... Mas a porta trancada, aquela porta, aquela que dava acesso a tudo, aquela que só tinha uma chave mestra, essa tinha sido trancada pra sempre... Do lado de dentro, em algum lugar, se pararmos pra ouvir com atenção, ainda podemos escutar os gritos abafados, o desconforto estrondoso das lágrimas que caem no mais completo silêncio...
A vida, isso que chamamos vida, continua impassível do lado de fora. Porque é assim que as coisas sempre são. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Despedidas

Ano maluco, ensandecido. Plinio Marcos me invadiu, com toda a sua paixão, com toda a sua intensidade, com todo o desespero que marca sua obra, num paralelo perfeito.
Nesse ano os extremos foram absurdos. Minha vida explodiu. Transcendi limites para baixo, para cima, direita, esquerda... aleatoriamente...
Acabamos. Acabamos maravilhosamente.
Mas é sempre tão doloroso encerrar ciclos... Especialmente um tão intenso quanto esse...
Então é momento de adeus. Adeus geral.
Morrendo essa noite pra ressuscitar amanhã...

sábado, 1 de setembro de 2012

Só o momento existe


Só o momento existe.
Hoje estou olhando para todo mundo e tendo a sensação que são todos crianças. Estado de graça. Uma vez me disseram que amar é enxergar cada pessoa como Deus sonhou (antes de se transformarem no que acabaram se transformando depois). Faz sentido.  Um Deus onisciente não sonharia. Não faz sentido sonhar quando você já sabe tudo o que vai acontecer. Mas o Deus presente no meu coração sonha. Sonha com o dia em que o ser humano vai surpreendê-lo com seu livre arbítrio e também ensiná-lo a amar mais e melhor. Sim, o Deus do meu coração aprende a amar com sua criação, tal qual a gente vai aprendendo com os filhos os amores infinitos e incondicionais que nos permitimos sentir.
Hoje todo mundo que eu olhei tinha um brilho lindo nos olhos, especialmente quando sorria. Vontade que essas crianças nunca deixassem de sorrir... Por quê nós todos nos perdemos tanto em sofrimentos desnecessários?
Ontem tava tentando responder pra mim mesma e outros sobre quem somos, de onde viemos, para onde vamos... Eu tenho certeza que só estamos juntos nesse mundo pra aprender a amar melhor. Ou amar de verdade, sei lá. E a gente vai fazendo experimentações. Experimenta com mãe e pai, irmãos, amigos, homens e mulheres, depois experimenta com os filhos... Com cada um deles a gente vive uma forma diferente de amor e vai saboreando, e vai vendo o gosto que isso tem e os sentimentos que produzem na gente...
Nada na vida me faz mais feliz que gente. E pedagoga que vou, ver além do que mostram, entender o potencial que tem e puxar pra luz. Como pedagoga, sou meio parteira. De alguma forma vejo o que brilha por dentro dos machucados, das feridas, dos medos. Essencialmente aprender significa remover muros e deixar de ter medo. Pra poder ser livre. Eu sinto que vivo pra isso. Pra ajudar as pessoas a se trazerem verdadeiramente pra luz, parindo a si mesmas num trabalho de parto que é pura metamorfose.  Não antes de parir a mim mesma, com todas as noites escuras, os desesperos, os fantasmas, as saudades, os pavores... Porque experimentar tudo isso me ajuda a reconhecer isso nos demais, me ajuda a todo dia lembrar que o outro é feito da mesma essência que me habita...
Tá bonito esse caminho... Muito bonito. E eu, que tantas vezes quis me agarrar em perspectivas de futuro, agora estou inteira no hoje. Experimentando e vivenciando.