Por muito tempo tentou não pensar. Porque pensar seria
doloroso demais. Porque não podia se impedir de chorar e lamentar profundamente
a vida que deixou de acontecer.
Exatamente como um aborto. Sim. Era triste porque não era só
a perda. Era uma interrupção do vir-a-ser. Era nunca conhecer o que poderia ter
sido. E isso era triste, imensamente triste. O peso de um jamais. O peso de um para
sempre ao contrário. A dolorida verdade da vida que já não existia. Aquele
aborto deixaria para sempre um espaço vazio, um espaço reservado a um colorido
e a possibilidades infinitas que nunca tinham encontrado espaço pra ser de fato.
Tudo era um imenso silêncio. O vento já não soprava, e o
deserto parecia tão maior. Aquele frio voltara, desde os primeiros momentos. Em
algum lugar nevaria para sempre, e nada seria capaz de ser forte o suficiente
pra aquecer.
E foi só então que ela chorou. Chorou a perda do aborto, que
por tanto tempo tinha se anunciado, aquele aborto que estava anunciado desde a
concepção, desde o primeiro instante onde aquela semente de vida tinha aparecido.
Aquele choro que chovia. E em algum lugar da alma a chuva era torrencial.
Ela tinha se livrado de tantas correntes, de tantos
cadeados, de tantas prisões. E no exato decisivo tempo, a porta foi
escancarada, por um breve instante ela tinha estado vulnerável, alcançável, ela
esteve ali, nua, de verdade, cheia de uma verdade que doía de tão intensa. Uma
verdade que sangrava. A porta se abriu. E ela tinha esperado, e esperado. Até
que o aborto aconteceu. Foi-lhe embora a vida, e como doía...
Sim, podem haver outras gestações, outras forma de vida,
outras promessas... Mas a porta trancada, aquela porta, aquela que dava acesso
a tudo, aquela que só tinha uma chave mestra, essa tinha sido trancada pra
sempre... Do lado de dentro, em algum lugar, se pararmos pra ouvir com atenção,
ainda podemos escutar os gritos abafados, o desconforto estrondoso das lágrimas
que caem no mais completo silêncio...
A vida, isso que chamamos vida, continua impassível do lado
de fora. Porque é assim que as coisas sempre são.