E é nesse contexto que eu vejo a montagem de Plinio Marcos. Escrevi pro meu grupo de teatro sobre ele, e sobre a forma como me apaixonei por ele, e sobre a finalização do trabalho que se aproxima...
... Não importa de quantas peças de teatro eu venha a participar, Plinio Marcos vai ficar marcado na minha alma como o cara que abriu o mar em dois. Tudo na minha vida pode ser dividido em antes e depois de Plinio. Foi pancada atrás de pancada, em todos os sentidos. No teatro e fora dele.
Vocês devem se lembrar que nas primeiras aulas eu só chorava. Era tudo de muita intensidade pra mim. Os exercícios iniciais eram muito desafiadores. Um universo de violência, agressividade, grosseria, selvageria... O modo como ele expõe a miséria humana de uma forma que faz qualquer um se identificar, de uma forma que a gente torce pro Tonho matar o Paco e depois fica se sentindo mal quando isso realmente acontece. Da forma como qualquer mulher se sente abandonada quando a Neusa Sueli senta no chão.
E então, quem eu sou? Dei sorte na vida e só por isso não saio assassinando pessoas por aí? O que acontece quando a gente chega no limite do limite do limite?
Algumas coisas horríveis aconteceram comigo nesse semestre. Estive no inferno. Coisas que eu não desejaria pro meu pior inimigo se eu tivesse algum. Minha mãe morreu, e antes de morrer “ficou morrendo” por um tempo insano, num gerúndio de dor e sofrimento que parecia que nunca chegaria ao fim. Em algum momento disso, nem sei como, tive que lidar com outros sentimentos intensos enquanto lidava com a perda da minha mãe, tudo ao mesmo tempo,junto e misturado, e logo em seguida vieram à tona lembranças a respeito da minha infância, coisas pesadas pra valer que a memória tinha apagado completamente, e vieram à tona de repente, quando tudo já estava traumático mesmo, pra ser a cereja do bolo todo. E eu tive que lidar com isso também, com os motivos pelos quais eu tenho dificuldade de me aproximar fisicamente das outras pessoas e imponho barreiras seguras, até corporalmente, para que ninguém se aproxime demais de mim, em níveis que não dou conta de bancar.
Enfim, de repente eu não tinha condições de lidar com mais nada e me mantive por uns tempos digamos assim “desconcentrada”. Meio dentro meio fora do planeta, porque envolver-me e concentrar-me significava estar 100% presente, e voltar pro meu corpo doía. Era preferível estar flutuando em algum lugar entre o ser e o não ser.
Mas a gente não fica nesse lugar pra sempre. Estou agora trabalhando com todos os furacões que me desmoronaram nos últimos tempos e não deixaram pedra sobre pedra em pé em mim. Aprendi que sou uma pessoa bem difícil de derrubar, mas eu também caio. E caio pra valer.
Amor... Um sentimento que também andei revisitando. A gente não ama as pessoas porque elas são perfeitas. E quando a gente ama, ama com imperfeição e tudo. Ama inclusive por causa das imperfeições todas.
Mas quando a gente deseja ser correspondido e isso não acontece da forma esperada, a gente fica tentando achar explicação pra isso nas nossas imperfeições e acaba ficando ainda mais triste. E se a gente não se resgata desse lugar, acaba preso a vida toda dentro desse círculo vicioso: Condena as próprias imperfeições, não se ama, não é amado e explode o mundo.
E desse lugar olhei de novo pros personagens do Plinio... Meu Deus, eu sou cada um deles, dentro das suas fragilidades, seus enganos, seus descaminhos, suas feiuras. Como era fácil olhar de fora e apontar o dedo do alto da minha “perfeição bem resolvida”. E como dói olhar de perto.
Esse convite pra “olhar de perto a miséria humana” eu acho que entendi bem. Muito bem.
E aí fiquei pensando que queria partilhar tudo isso com vocês, porque no final das contas nosso espetáculo é pesado. É pesado porque é um espelho, um convite pra que cada um se olhe e enxergue seu próprio ódio no Tonho, sua violência nos 25 homens, seu desespero no Zé, sua falta de auto-estima na Neusa, seu desejo de revolução na Célia, sua necessidade de aparecer na Lisa, e tanto, tanto mais...
Plinio assombrosamente escancara aquilo que a gente queria mais que ninguém soubesse ao nosso respeito. Que todo mundo sente, todo mundo tem, mas não assume. Não assume porque tem medo, porque acha que as fragilidades são menos dignas de amor... Porque no fundo tudo que todo mundo quer é amar e ser amado, muito e sempre. E esse desejo de amor que não se sacia, se levado no limite, aparece sob a forma de todos os monstros: na exigência de obediência, no desejo de aparecer, na opressão, na violência, na falta de auto-estima, no desejo de matar e todo esse resto que os personagens do Plinio mostram...
As fragilidades são dignas de amor sim. Na verdade, há beleza nelas. Eu tenho muito orgulho do nosso espetáculo. Não é mais um universo de violência, agressividade, grosseria, selvageria... Pelo menos não só isso. É também a beleza da fragilidade, do desejo de ser bonito e de ter valor...
“Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor, que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor.” (Plínio Marcos)
Que assim seja. Hoje. Um novo caminho. Pela harmonia e pelo amor.
É assim com toda a alma, inteira, que vamos estrear naquele palco no dia 12.

