quinta-feira, 10 de maio de 2012

Agonia da Fênix

Segundo a história, a fênix, ao pressentir que está prestes a morrer, se recolhe, constrói um ninho e espera. E então ocorre o incêndio. O incêndio renovador, que destrói tudo até restarem somente as cinzas. Dessas cinzas a fênix ressurge, jovem novamente, pra iniciar a vida que apenas começa...
Mas, e antes do incêndio? Como são os momentos de recolhimento que antecedem essa morte?
É o lugar onde estou. Recolhida no próprio ninho, mesmo sendo aquela que não se sente em casa em lugar nenhum.
Mas eis que espero. E o sentimento é uma agonia. Saber que se vai morrer é terrível. Haja o que houver e seja como for, vou morrer. Para todos os lados que eu olho, em tudo o que vejo, a vida aqui continuará correndo a seu próprio modo, sem mim. Quando eu voltar, será outra pessoa voltando pra outro lugar...
Uma vontade de prantear meu próprio luto. Um pavor, pavor intenso, de ficar esse tempo todo comigo mesma, sem ninguém que sinto como meu apoio, sem nada que conheço como segurança... Eu disse que não tinha casa? Talvez minha casa seja São Paulo, e por isso eu esteja tão assustada.
Tenho certeza que será transformador. Tenho medo de morrer de saudades. Tenho medo de gostar e nunca mais ter vontade de voltar, mas ter que voltar mesmo assim e passar o resto da vida sabendo que estou "tendo que".  Medo, um medo insano.
Liberdade. Apesar de estar no trabalho o dia todo, uma liberdade insuportável. 15 dias apenas comigo mesma. Sim, com as pessoas do trabalho, que serão diferentes a cada dois dias. Não haverá tempo de travar amizades, no máximo simpatias... De resto, só eu.
Então é agora. É agora que a limpeza da renovação começa. É agora que me despeço de mim, da forma como me conheço... Que venha o novo. Com medo, mas um medo fértil de desejos.
E, depois que eu saltar desse abismo, se não for pedir demais, desejo que haja alguém do outro lado pra me abraçar, e me lembrar que nascer é assustador, mas que sou forte e tudo vai ficar bem. Pode ser?


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Me diz como é que você pode viver indo embora sem se despedaçar?


Sim, eu vivo indo embora. Desde que me lembro. Foram muitas partidas. E em cada lugar onde eu passava me arrancava um pedaço sim. Eu nunca cheguei pra ir embora. Sempre era pra ficar. Mas nunca encontrei minha casa. Sempre tive essa sensação incômoda, de não pertencer a lugar nenhum. Eu não sou de lugar nenhum, e nenhum lugar me pertence. E como isso sempre doeu e ainda dói! Doía mais quando eu tinha a sensação de que era tão singular. Eu olhava em volta e parecia que todos os outros estavam tão confortáveis com o lugar onde estavam... Eles não pareciam estar procurando coisa nenhuma. Eles pareciam sequer enxergar onde estavam. E eu com aquela sensação, de que alguma coisa em algum lugar estava me chamando, mas eu não sabia o quê, nem onde... Eu sempre fui muito subjetiva, sempre escutei o que não se dizia, vi o que não se mostrava... E como eu explicar essa coisa de chegar nu lugar, ou olhar uma pessoa, e intuitivamente saber e entender o que está acontecendo?
Ok, eu sei que sempre tive uma vontade terrível de ser adequada. De me adaptar, de agradar a quem me visse, de ser boazinha. E aí essa percepção me ferrava, porque eu sabia o que tinha que fazer pra ser adequada em cada lugar. Até me dar conta que minhas partes adequadas não combinavam entre si e que eu não passava de uma colcha de retalhos muito da confusa. E nem fez tanta diferença. Porque nem importa o que a gente faça, nem o melhor que tente fazer, as pessoas terão o próprio jeito de ver. E elas sempre vão enxergar o que querem, independente das evidências... E, de qualquer modo, o alívio é que as outras pessoas estão tão ocupadas consigo mesmas que dificilmente sabem ver e ouvir o que seja diferente delas, então nem importa tanto assim.
Bem, ok, nem dá pra generalizar. Mas eu sei que isso que chamamos de “realidade” e as coisas que enxergamos como                 óbvias”, quase nunca dizem respeito às mesmas referências. Quando eu digo coisas como desejo, sexo, liberdade, amor, no que estou pensando? E o que se invoca no outro diante das mesmas palavras? Com alguns, a diferença pode ser tão gritante que é quase como se não fôssemos nativos do mesmo idioma...
Há dias em que me sinto distante, tão distante de qualquer outra pessoa ou lugar, ou realidade, que é quase como se eu estivesse olhando tudo de fora. Uma desagradável sensação de “ainda que eu tente me comunicar, não vai rolar”. E a solidão dos espaços infinitos me atordoa. Foi por medo desses atordoamentos que boas vezes me prendi. Sabendo que não devia. Mas me esforçando para parecer ao menos com qualquer coisa que fosse familiar, ou segura, ou minimamente normal. Uma desagradável sensação de que se me descobrissem eu seria mandada pra fora (pra fora de onde, do mundo?)
Eu não sei se a gente ganha enquanto pessoa tentando ser melhor. Talvez fosse mais produtivo que a gente simplesmente aceitasse o que é, por mais estranho que fosse, e se amasse assim mesmo, sem ficar se cobrando por aquilo que deveria ser. Talvez fosse tão mais simples ser feliz e pronto, imaginando que o resto é consequência...
Como foi mesmo que vim parar nesse assunto?

terça-feira, 1 de maio de 2012

Saindo do centro

Ontem minha mãe me enterneceu. O esforço que fazia para conversar e interagir, estar no mundo, fazer com que percebêssemos que ela estava conseguindo pensar com clareza...
Muito guerreira. Agora o caminho será longo, vai demandar paciência de reaprender até mesmo a respirar. Mas eu acredito que ela dá conta, mesmo debilitada como está. Sempre deu. E agora sim eu posso apoiar e sustentar se ela achar difícil demais.
Sim, descoberta revolucionária: eu não sou o centro do Universo.
Depois da catarse de escrever sem parar tudo o que deu na telha, vai me dando vontade de me livrar de tanto peso, sair do centro, olhar em volta...
Sou só uma parte... Uma parte que pode muito bem estar em harmonia com um todo muito maior e muito mais importante... Ser uma parte de um todo é tão menos pesado do que ser sempre tão da mesma forma...
Eu quero dar espaço. Diminuir. Deixar que as coisas aconteçam. Confiar na vida. Abrir mão do controle. Apreciar a beleza e a arte. Produzir a beleza à medida que vou dando espaço pra que ela exista...

(A imagem acima tem o link para o artista.)

Eu acho que só agora começo a estar pronta pra aprender a amar.
De verdade. Não como os adultos.