domingo, 29 de abril de 2012

Agora uma pausa

Hora de ir devagar.
Hora de respirar. Depois de um dia de intenso movimento interior.
Agora posso voltar a me apoiar na poesia, que sempre me sustentou.
Em algum lugar de mim, mesmo no meio da desconstrução, mora o desejo de desfrutar da beleza.
Hora de olhar pra esse cenário destruído e enxergar a leveza que existirá na próxima curva.




Sim, tudo incoerente

Sim, tá tudo muito, muito incoerente.
Mas eu resolvi que esse não é mesmo o melhor momento para fazer sentido.

E então, novamente o amor

Bem de uma tacada só já falei de amor. Já falei de vocação religiosa.Já falei da minha mãe e a devolvi pro lugar dela.
Resta meu amor.
O mais difícil.
Eu sempre me orgulhei, porque podia não saber muita coisa, mas amar eu sabia. Amar sem possuir ninguém e sem sentir ciúmes.
Será que eu sabia? Será que eu sei?
Se eu questionar o modo como eu amo, não me sobra nada. Então é isso. Que seja desconstruído também o amor.
O meu "eu te amo, mas não me toque porque eu tenho medo". "Eu te amo, mas não ouse querer saber pra onde estou indo ou de onde venho". Ou ainda: "Eu te amo, mas não tente me controlar ou eu imediatamente me afasto". E, por ultimo: "Eu te amo, mas não espere que eu apóie minha vida nisso, porque quando você for embora eu tenho que estar em pé e sobreviver"
Esse meu amor é algo além do que risível? Essas formas de amar com tantas limitações e sem nenhuma confiança? Então, nem amar eu sei? Que raios eu sei fazer então?
OK, saldo do dia: uma mulher de 35 anos que pra muito do básico acha que ainda tem 12, que não sabe fazer sexo, não sabe amar, não confia em quase ninguém, que edita suas verdades batendo no peito e dizendo saber amar, e dai ela mesma acredita nessas verdades, pra depois descobrir que não era nada daquilo, e que tá chutando pedra sobre pedra até que tudo se desfaça, pra poder começar outra vez, e dessa vez de verdade...
Dá medo.

O Ego e a minha mãe

Resolvi escrever até cansar. Até esgotar de falar de mim, até não ter nada que eu já não tenha dito. Mas meu ego é grande demais. (!) Uma vez li que a pessoa tímida é tão presunçosa que tem medo de errar porque acha que seu erro ficará ecoando por toda a eternidade e ninguém mais esquecerá. Engraçado. E real. Bem nessas.
Daí que minha mãe ficou doente, gravemente doente. Quase morreu.
Eu achava que não me importaria. Ela sempre me odiou mesmo!
Quer dizer...
Só entendi recentemente que ela sempre odiou a si mesma. Tanto, tanto, que nada bom podia sair dela. Nem os filhos. Ela tinha muito medo que as pessoas dissessem que ela não sabia educar filhos. Se orgulhava porque quando saíamos com ela, na rua ou na casa de alguém, não abríamos a boca, nem nos mexíamos do lugar. E todos diziam: que filhos educados você tem! E ela ficava feliz.
E éramos preparados pra uma guerra civil, "vou bater pro mundo não bater lá fora", e o que eu passei na infância nunca mais enfrentei em qualquer outra realidade, de tão "bem preparada" que fiquei.
E eu não podia ficar feliz por ter tirado nove e meio numa prova, porque minha obrigação era tirar 10. Do modo dela, queria que fôssemos nada menos que perfeitos, e como elogio acomoda a pessoa, por melhor que fosse o esforço em qualquer coisa, sempre tinha o erro que não tínhamos visto, e era aquele que precisava ser apontado. Fiquei mestre em sondar as expectativas alheias e tentar concretizá-las. E fracassar irremediavelmente, vez após vez. Uma sensação eterna de que nada do que eu fizesse jamais seria suficiente, não importa quanto nem por tanto tempo eu me esforçasse.
E hoje vejo que nada disso foi problema.
 Sério.
Porque teve um momento em que eu decidi sozinha que as críticas e cobranças de perfeição da minha mãe não me fariam mais diferença, que ela mesma não me faria mais diferença, que teríamos uma relação pelo menos cordial, já que não posso deixar ela se aproximar muito, porque se ela consegue, mesmo ainda hoje, dá um jeito de me apontar o tamanho da inadequação que eu sou. Como quando foi ver a estréia do CENAS e fez um único comentário: que com aqueles pulos todos do final da peça eu deveria pelo menos ter emagrecido, mas nem assim.
Teve um momento em que isso já não tinha a força que tinha quando eu era criança.
Mas quando foi que eu comecei a repetir igualzinho essas coisas pra mim mesma, sem nem mesmo precisar mais da minha mãe pra isso? Quando foi que eu já não me importava que ela falasse fora, mas passei a repetir igualzinho, até com os mesmo tons, nos lugares mais inacessíveis de mim mesma?
Quando foi que o grande adversário passou a ser eu mesma, me cobrando a perfeição que eu jamais atingirei?
Tudo isso pensei nesses dias que minha mãe esteve doente. Eu sempre tive medo dela. Ela sempre fez questão de mostrar-se de uma forma assustadora, pra não perder o respeito.
E eis que de repente... ela estava ali, entubada, tão frágil quando uma folha de papel, sem conseguir sequer respirar... Tive dó. Ninguém merece. Mas, mais do que ter dó: a entidade MÃE não era nada mais que uma mulherzinha idosa e doente, merecedora de todo o meu carinho e compaixão. Era assim que a coisa toda terminava. No final, o resto todo não tem nada a ver com ela... Não mais. De repente eu estava livre de uma grande sombra que pairava sobre mim por toda uma vida. E aí descobri que a grande sombra não era ela, tadinha. Era eu, só eu! E, se sou eu, tá tudo na minha mão! Então comecei!

Escrita e corpo

Eu pretendo em breve parar de precisar usar a escrita pra dizer o que quero dizer. Fiz isso a vida toda, de conseguir a expressão que eu queria somente escrevendo.
Uma vez na adolescência eu brinquei de Cyrano de Bergerac com um mocinho de quem eu gostava. Porque eu achava que ele nunca ia olhar pra mim mesmo, a não ser que eu escrevesse. Escrever seria a única forma de fazê-lo perceber que eu existia. Bem, somos amigos até hoje. Mas eu não sei por quê sempre acabo "desvirtuando" toda relação de atração que tenho por um amor tão de amigo, que apesar de muito bom, nunca tem nada de físico. Eu não entendo como o sexo se relaciona com o modo como as pessoas se relacionam. E com relação a isso sinto-me deficiente. Não no mau sentido, mas o deficiente, (seja visual, auditivo, etc) é aquele que, por não ter uma forma de comunicação com o mundo, adapta-se e desenvolve outras formas, de forma que se comunica com sua percepção de forma diferente das demais pessoas. É exatamente o que eu sinto com relação a sexo, e na maior parte das vezes, com tudo o que vem junto com a linguagem do corpo. Tenho a sensação que meu corpo nem é meu. Que não comunica nada, não me pertence, não me mostra, não me serve. Só me esconde. Me esconde de precisar ser mulher.
Poucas pessoas que eu conheço conseguem me ver além de um grande, simpático, meigo e sorridente ursinho de pelúcia. Isso tem lá suas vantagens: ninguém se sente ameaçado por mim. Mas frequentemente eu vejo uma imagem infantilizada de mim mesma no olhar alheio.
Nunca encontrei alguém que me dissesse: "Quando olhei pra você eu só pensava em ir pra cama". O motivo é óbvio: visualmente nada em mim comunica ou convida pra isso. Mas, se numa primeira impressão não há nenhum tipo de convite desse em mim, numa segunda e terceira impressões... menos ainda! De vez em quando eu fico achando que adoraria ser vista como uma mulher comum, que sai uma noite e depois não liga nunca mais. Mas alguma coisa em mim tranca a chave essa porta, alguma coisa em mim grita pra todo mundo qualquer coisa que pertence a um lugar que eu não consigo enxergar, mas que comunica claramente que isso não rola comigo.
Um amigo diz que não tem nada de encantador em ser visto como o "troféu da noite" numa festa, sabendo que depois da cama não sobra nada. Eu não tenho a menor idéia do que ele diz. Olhando de fora, me parece assustador, mas bem divertido. Ou não?
OK, eu nesse lugar ficaria apavorada e aflita, e correria de volta pra dentro de mim. E por isso me previno e me protejo, cultivando uma casca que diz claramente "não se aproxime para fins sexuais".
Mas de vez em quando não é isso. De vez em quando eu sinto sim, o mesmo que todo mundo sente, e aí bate um desespero de não conseguir comunicar de forma nenhuma o que quero, o que é tão simples pras outras pessoas todas.
Caramba, eu realmente sou meio patológica!

Resgatando algumas pecinhas

O que ficou? O que já foi de mim?

Agora vou começar a juntar os pedaços pra tentar entender o sentido deles. Quantas vidas eu já vivi nessa mesma? Quantas coisas entendi, e quantas ainda mudarei milhões de vezes de idéia?
O sonho da minha vida é viver de escrever. Mas ainda não escrevo bem o suficiente, me falta confiança e experiência. Mas me vejo sim, velhinha, agradavelmente sozinha numa cabana na beira da praia, escrevendo e fazendo as pessoas sonharem através das minhas histórias, que vão sempre provocá-las pra amar mais, e amar de verdade.
Porque foi que eu achei que tinha vocação religiosa? De vez em quando eu me pergunto isso. Acho que porque sempre soube que jamais seria capaz de amar somente uma, ou somente duas, ou uma quantidade limitada de pessoas. Sempre chegaria uma terceira, ou quarta pessoa pela qual eu me apaixonaria, e eu jamais poderia ficar presa, achando que não posso amar. Achei que isso era coisa de vagabunda, ou então eu tinha que encontrar um sentido espiritual na coisa toda, sublimando o que fosse fisico para que pudesse amar intensamente desse jeito maluco sem magoar alguém que se iludiria pensando ter posse sobre mim. Não me parece sensato fazer esse tipo de promessa: Amo somente essa pessoa e a a amarei por todos os dias da minha vida. (Porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo...)
Eu acredito em Deus, mas eu acho que ele não é masculino nem feminino, (mas se fosse pra ser alguma coisa seria feminino) e eu acho também que ele não tá nem aí se acreditamos ou não nele, se seguimos ou não rituais desta ou daquela religião... O que importa é o quanto amamos, e o quanto conseguimos construir nossa felicidade através do nosso amor. O amor de verdade purifica qualquer coisa, justifica qualquer coisa, faz a gente ficar maior. E talvez o maior pecado seja tentar controlar, limitar, reduzir o amor, torná-lo pequeno para que possamos entendê-lo com nossa pequena consciência... Todo o resto é permitido.
Eu pensava sempre, e ainda penso, que todo mundo é tão carente que basta um gesto de consideração e carinho pras pessoas gostarem da gente, sentirem-se acolhidas. E eu tenho tudo pra aprender ainda, mas sei olhar pras pessoas. Olhar desse jeito, tentando entender o que elas sentem, sem julgamento. Já conheci números que passaram a vida sendo números, que lidavam bem com isso. Mas já experimentei a alegria que eles experimentam ao perceber que são muito mais que números, que podem ampliar-se. Acho que por isso fui ser Pedagoga. É lindo perceber o desconstrução de um número, o instante exato em que ele entende que ser comum é muito pouco quando somos todos feitos pro extraordinário.
Eu achei que tinha que ser religiosa por causa de um filme. Esse filme. Que até hoje me emociona quando assisto, porque o olhar de amor dos atores é uma coisa que realmente convence.

Desconstruindo o mundo

Desconstruindo o mundo. Não onde vivem todas as pessoas. O MEU mundo. Aquele que eu acredito, acreditei sempre.
Tá parecendo uma adolescência aos 35 anos. Mas ok. Parei de me importar com isso também.
O Facebook não vai dar conta de tudo o que eu tenho pra escrever agora. Anos e anos e anos de verdades engolidas que começam a ser desengolidas. Chega de sobrecarregar meus amigos com isso. É hora de falar tudo, falar até cansar, falar até que nada mais precise ser dito.