domingo, 29 de abril de 2012

O Ego e a minha mãe

Resolvi escrever até cansar. Até esgotar de falar de mim, até não ter nada que eu já não tenha dito. Mas meu ego é grande demais. (!) Uma vez li que a pessoa tímida é tão presunçosa que tem medo de errar porque acha que seu erro ficará ecoando por toda a eternidade e ninguém mais esquecerá. Engraçado. E real. Bem nessas.
Daí que minha mãe ficou doente, gravemente doente. Quase morreu.
Eu achava que não me importaria. Ela sempre me odiou mesmo!
Quer dizer...
Só entendi recentemente que ela sempre odiou a si mesma. Tanto, tanto, que nada bom podia sair dela. Nem os filhos. Ela tinha muito medo que as pessoas dissessem que ela não sabia educar filhos. Se orgulhava porque quando saíamos com ela, na rua ou na casa de alguém, não abríamos a boca, nem nos mexíamos do lugar. E todos diziam: que filhos educados você tem! E ela ficava feliz.
E éramos preparados pra uma guerra civil, "vou bater pro mundo não bater lá fora", e o que eu passei na infância nunca mais enfrentei em qualquer outra realidade, de tão "bem preparada" que fiquei.
E eu não podia ficar feliz por ter tirado nove e meio numa prova, porque minha obrigação era tirar 10. Do modo dela, queria que fôssemos nada menos que perfeitos, e como elogio acomoda a pessoa, por melhor que fosse o esforço em qualquer coisa, sempre tinha o erro que não tínhamos visto, e era aquele que precisava ser apontado. Fiquei mestre em sondar as expectativas alheias e tentar concretizá-las. E fracassar irremediavelmente, vez após vez. Uma sensação eterna de que nada do que eu fizesse jamais seria suficiente, não importa quanto nem por tanto tempo eu me esforçasse.
E hoje vejo que nada disso foi problema.
 Sério.
Porque teve um momento em que eu decidi sozinha que as críticas e cobranças de perfeição da minha mãe não me fariam mais diferença, que ela mesma não me faria mais diferença, que teríamos uma relação pelo menos cordial, já que não posso deixar ela se aproximar muito, porque se ela consegue, mesmo ainda hoje, dá um jeito de me apontar o tamanho da inadequação que eu sou. Como quando foi ver a estréia do CENAS e fez um único comentário: que com aqueles pulos todos do final da peça eu deveria pelo menos ter emagrecido, mas nem assim.
Teve um momento em que isso já não tinha a força que tinha quando eu era criança.
Mas quando foi que eu comecei a repetir igualzinho essas coisas pra mim mesma, sem nem mesmo precisar mais da minha mãe pra isso? Quando foi que eu já não me importava que ela falasse fora, mas passei a repetir igualzinho, até com os mesmo tons, nos lugares mais inacessíveis de mim mesma?
Quando foi que o grande adversário passou a ser eu mesma, me cobrando a perfeição que eu jamais atingirei?
Tudo isso pensei nesses dias que minha mãe esteve doente. Eu sempre tive medo dela. Ela sempre fez questão de mostrar-se de uma forma assustadora, pra não perder o respeito.
E eis que de repente... ela estava ali, entubada, tão frágil quando uma folha de papel, sem conseguir sequer respirar... Tive dó. Ninguém merece. Mas, mais do que ter dó: a entidade MÃE não era nada mais que uma mulherzinha idosa e doente, merecedora de todo o meu carinho e compaixão. Era assim que a coisa toda terminava. No final, o resto todo não tem nada a ver com ela... Não mais. De repente eu estava livre de uma grande sombra que pairava sobre mim por toda uma vida. E aí descobri que a grande sombra não era ela, tadinha. Era eu, só eu! E, se sou eu, tá tudo na minha mão! Então comecei!

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