sábado, 27 de abril de 2013

Eu sou.


Tenho 36 anos, e sou mãe de um lindo menininho de 04 anos.
Sou Pedagoga, e trabalho em sete lugares diferentes.
Duas vezes por semana tenho aulas de teatro, e eles ajudam muito a manter minha sanidade. No teatro experimento personagens diversos que me fazem ser com segurança aquilo que não me sinto capaz na vida real.
Moro com meu pai e meu filho, e cuido deles o máximo que posso (mesmo que ultimamente meu pai, com 72 anos de idade, venha cuidando bem mais de mim do que eu dele). Mas eu tento. Deixo meu filho o mínimo de tempo possível longe de mim, e tomo muito cuidado com tudo o que digo ou faço pra ele. Não ligo se ele não for obediente, mas desejo muito que ele consiga ser feliz. O que implica em algumas situações não se ter imediatamente o que se quer. Tenho limitações e procuro ter paciência com elas. Mas eu acolho suas forças e seus momentos frágeis com a mesma ternura, torcendo pra que isso faça diferença.
Até o ano passado eu era casada. Me separei. E a pergunta não é por que me separei. A pergunta é porque me casei. A única resposta que encontro é que eu queria construir uma família e ele estava disponível pra isso. Porque de resto, não, eu não era apaixonada. E eu pensava que amava, mas hoje não sei se era amor aquele sentimento de que eu sempre precisava conquistar a afeição dele dando tudo o que ele queria em todos os sentidos, e mesmo assim, eu me sentia sempre tão sozinha.
Ano passado minha mãe morreu, depois de um período de sofrimento pra todo mundo. Morreu de câncer. Morreu como viveu: Botando defeito em tudo o que eu fazia. Gritando pra mim que queria a minha irmã cada vez que eu entrava pela porta do quarto. Ela conseguia gritar comigo mesmo quando já não era capaz de emitir nenhum som.
Olhando pra trás, poucas vezes eu tive colo na vida. Minhas fragilidades sempre foram recebidas com pancada pra largar de frescura. E tive que crescer, e crescer, e crescer. Pra não precisar mais de nenhum colo. Isso nunca funcionou, mas me permitia sobreviver.  
Estou com quase 100 quilos. E cada vez que tento reduzir, entro em pânico. Porque a obesidade mórbida me protege das pessoas. Me faz sentir mais segura.  Ninguém me considera como ameaça pra roubar o namorado alheio, por exemplo.  Aliás, pouca gente me considera uma mulher, boa parte dos que me conhecem me consideram um ursinho panda...
Sou tímida porque o olhar do outro me incomoda tremendamente. Vivo o grande paradoxo de querer desesperadamente ser vista e amada, e não suportar o olhar do outro. Por isso o teatro é tão importante. Me mostra e me esconde ao mesmo tempo.  Emagrecer é fácil, mas quando eu elimino três quilos e alguém diz que já dá pra perceber, o terror me domina, e junto com ele o impulso inevitável e irresistível de comer chocolate sem parar pra me cobrir.
Não importa o que eu faça, eu sempre sinto que estou fazendo tudo errado, ou que qualquer esforço não é suficiente.  E me sinto o tempo todo equilibrando todos os meus compromissos como quem vai enchendo e soltando bexigas, e elas precisam ser mantidas no ar, todas ao mesmo tempo. São os prazos dos meus trabalhos. É o teatro. É a família. São as contas. São as outras pessoas que precisam de atenção. Tem minha casa pra colocar em ordem. Alguém ou alguma coisa sempre fica deficiente. Um dia estouro um prazo importante, mas daí no próximo tento terminar bem antes e com mais qualidade pra compensar. Daí pra fazer isso eu falto no teatro, e daí na semana seguinte tento participar com toda a minha alma. Mas daí meu filho acaba ficando quase a semana inteira na casa do pai. E daí eu pego ele e tento passar mais tempo com ele, e acabo estorando prazo de trabalho de novo. Simplesmente porque não há nada que nesse momento eu possa deixar para depois.  Tudo que existe em mim é tão necessário agora para que eu possa me construir e me entender...
E, como se não fosse o bastante... Acabo de entrar num grupo de estudo de psicanálise.