segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Dezembro de 2012 - O novo tempo

O novo tempo chegou, bem antes do que eu imaginei.
Novas perspectivas profissionais. Muita vontade de fazer acontecer.
Um renascimento geral.
Uma insuportável vontade de viver.
A vida começa agora.
Eu nem cheguei na metade ainda.
Bora ser feliz.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Visualizando o nada

Acordei num grande limbo cinzento. Que lugar é esse e como cheguei aqui?
O silêncio ensurdecedor. Somente o som dos meus próprios passos. E onde estavam todos?
Talvez não existisse mais ninguém. Talvez eu fosse a única sobrevivente mesmo. Mas do quê?
Procuro me lembrar de alguma referência, alguma memória, alguém com quem eu tenha convivido, uma casa pra onde voltar. A memória está vazia. E então existe o "quem sou eu": filha de alguém, amiga de alguém, esposa de alguém, mãe de alguém? E eu já não sabia.
Abri a boca para gritar, mas não havia ninguém por perto. Martelando por dentro um sentimento de "não adianta".
Onde estão? Onde estão todos?
Procuro olhar no chão, algum objeto, qualquer coisa que me de sinal que por ali, em algum momento, alguém já passou. Não há pegadas naquela areia. Sim, é areia... Talvez uma praia... Não, não parece haver nenhuma água por perto, é um deserto.
Penso que gostaria de ter um lápis, um pedaço de papel, uma garrafa. Eu escreveria um bilhete, dizendo ao próximo que passasse que eu estive ali. Na verdade, diria que um dia existi. Um dia existi e procurei alguém ou alguma coisa. e procurei muito, com toda a força da minha alma, até ficar cansada demais até pra procurar o que quer que fosse.
E então, quando eu já não me sentia capaz de dar mais nenhum passo, eu simplesmente deitei no chão e deixei-me ficar ali, de alguma forma ainda rezando pra que alguém ou alguma coisa pudesse me encontrar antes que eu desaparecesse.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Tão longe.

Estava lá. Naquele lugar desconhecido, com pessoas que nunca tinha visto. Anoitecia. E foi então que começou. Tudo estava desencaixado demais, muitos imprevistos aconteceram para que estivesse ali, naquele exato lugar e momento. Algo importante no ar. Em algum lugar, alguma coisa muito séria estava acontecendo. Algo decisivo e definitivo. Como explicar a sensação de perceber que o momento não era como outro qualquer? Havia uma decisão a ser tomada, ou sendo tomada naquele exato instante. Uma decisão que mudaria tudo, para sempre. Uma decisão dolorida demais.
Como explicar? Como entender? Como dizer que simplesmente sei, porque senti antes mesmo de qualquer notícia chegar?
Fugi. E corri, corri, corri, querendo ir pra bem longe. Querendo não saber, não sentir. 
Milhões e milhões e milhões de pessoas no mundo. Como é que mesmo assim a gente consegue ser tão único? 
Como é que mesmo assim há momentos em que somos estrangeiros absolutos em qualquer lugar?
Existe em mim um amor imenso. Um amor profundo e transformador. Eu sei que ele transformaria o mundo todo se apenas tivesse espaço pra existir. 
Mas não. Não há. 
A sensação é de estar no fundo do mar. Flutuando. Se eu gritasse, o som não chegaria a lugar algum. Se eu chorasse, as lágrimas se confundiriam com todas as águas à minha volta. Nada, nada é possível no fundo do mar. não há nada em volta, nada por perto...
E nada, nada do lado de dentro.
E ainda assim, é possível descobrir que ainda existe alguma coisa quando a gente tem vontade de correr pra longe, tão pra longe do grande nada que o tudo se tornou. 

sábado, 27 de outubro de 2012

Tudo é silêncio

Não há dor.
Não há desespero. Não há o desejo, profundo e imenso de que tudo mude, de que de repente ainda exista uma história pra se viver.
Agora tudo é simplesmente silêncio. Silêncio e solidão.
Há um deserto imenso. Nada de árvores, nem água, nem pessoas ou animais. Nada.
Se eu gritasse, o grito ecoaria a quilômetros de distância por espaços inimagináveis.
Mas não há sentimento suficiente ou restante pro grito.
E caminhando em meio aos escombros, o silêncio se apossa da minha vida, da minha alma... Nada, só o profundo vazio que se estende para os lados em todas as direções.
Se alguém me procurar, digo que estou no banho até que desista.
Porque não, não é o momento que eu queira ver alguém.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mais do mesmo. Ainda.


Não é que eu esteja sempre triste.
É que acabo vindo aqui quando tenho vontade de explodir.
Vontade que esse ano termine. Esse ano que trouxe mais novidades que todo o resto da minha vida. Tanta coisa pra lidar, que por dias só tenho vontade que tudo se transforme no mais absoluto silêncio. Que não existam pessoas, não existam compromissos, nem horários. Apenas qualquer lugar silencioso, quente, confortável, onde a gente possa simplesmente ser. Sem ter que fazer nada, mostrar nada, relacionar-se. Simplesmente ter a permissão de ser. De respirar com calma. De desfrutar da vida.
No meu coração, o deserto se faz presente. Não, não há ninguém. E quando escurece o frio me gela a alma. Eu tentei. Tentei ver outras pessoas. Tentei me dar oportunidades, afinal de contas não há nada a esperar no lugar onde eu fiquei parada. Mas não é assim que funciona. A gente não decide. O sentimento enxerga com olhos que a gente não vai entender nunca, e quando ele vê o que a gente não sabe o que é, sai correndo, desabalado. E a gente corre atrás dele, rezando pra que seja bom, ou pra que pelo menos não nos machuque tanto.
Sensibilidade à flor da pele. Daí memórias e dor que vem à tona. È a Lua. É o dia. Hoje é outro daqueles dias de enlouquecer. Sentimentos amplificados. Dou-me conta do motivo pelo qual certas coisas ainda me doem tanto. Alguns sentimentos tiveram sua ultima chance. Uma vez perdida, a inocência está perdida pra sempre. Histórias vividas podem ser relidas, podem ser vistas sob outros aspectos. Mas serão sempre as nossas histórias. Sua essência não muda. Cicatrizes poderão ser vistas, por mais sentido que se dê a elas, continuarão desenhando nosso corpo e nossa alma...
Quando olho pra dentro de mim, o velho amor permanece. Teimoso e firme. Ainda que eu não olhe pra ele, ele está lá, quietinho. Ainda que eu o mande embora inúmeras vezes, ele simplesmente continua ficando. Ficando como quem não quer nada. Ficando como quem ainda não aprendeu a ir embora. E então eu o abraço de novo, e digo a ele "pois que fique". Que fique o quanto quiser, o quanto aguentar, o quanto sobreviver. Não há nada que eu possa fazer, então fique... 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sério. Entendi



Sério. Eu entendi.
Entendi que por vezes nossa vida é sacudida por sentimentos intensos e maravilhosos, mas que a gente tem que conviver com o fato que isso não quer dizer nada.
E eu me sinto Ícaro, finalmente tendo asas e resolvendo visitar o Sol, até que as asas derretam e se despenque ao chão, despedaçando tudo pra sempre.
E então, que vida pode haver depois de ter experimentado tamanho esplendor de chegar perto do carro de Apolo que cruza o céu? E seu eu tivesse dez vidas, vinte vidas, eu queimaria todas tentando e tentando chegar o mais perto que eu pudesse até não restar nem mesmo meu ultimo suspiro.
Não faz mal. Mesmo se não for nada. Nunca. Eu voei tudo o que pude. Eu cheguei perto do Sol, eu queimei completamente as minhas asas, eu despenquei e morri. E estou inteira. Pronta pra estar viva, seja lá o que for que ainda me aguarda nessa vida. Esse ano foi tão miserável, mas sempre teve uma coisa boa pra acontecer no meio do caminho, mesmo quando parecia que nada nunca mais ia ser bom...
Não há sequer qualquer coisa pra esperar. Não tem nada pra acontecer. Somos assim.  E mesmo sendo uma pena pensar que a gente podia ser tanto, tanto mais... A vida é o que é. Nem mais, nem menos...  
Será que um dia penso em você sem sentir essa dor profunda a aguda que me acomete toda vez?

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Apesar


Por muito tempo tentou não pensar. Porque pensar seria doloroso demais. Porque não podia se impedir de chorar e lamentar profundamente a vida que deixou de acontecer.
Exatamente como um aborto. Sim. Era triste porque não era só a perda. Era uma interrupção do vir-a-ser. Era nunca conhecer o que poderia ter sido. E isso era triste, imensamente triste. O peso de um jamais. O peso de um para sempre ao contrário. A dolorida verdade da vida que já não existia. Aquele aborto deixaria para sempre um espaço vazio, um espaço reservado a um colorido e a possibilidades infinitas que nunca tinham encontrado espaço pra ser de fato.
Tudo era um imenso silêncio. O vento já não soprava, e o deserto parecia tão maior. Aquele frio voltara, desde os primeiros momentos. Em algum lugar nevaria para sempre, e nada seria capaz de ser forte o suficiente pra aquecer.
E foi só então que ela chorou. Chorou a perda do aborto, que por tanto tempo tinha se anunciado, aquele aborto que estava anunciado desde a concepção, desde o primeiro instante onde aquela semente de vida tinha aparecido. Aquele choro que chovia. E em algum lugar da alma a chuva era torrencial.
Ela tinha se livrado de tantas correntes, de tantos cadeados, de tantas prisões. E no exato decisivo tempo, a porta foi escancarada, por um breve instante ela tinha estado vulnerável, alcançável, ela esteve ali, nua, de verdade, cheia de uma verdade que doía de tão intensa. Uma verdade que sangrava. A porta se abriu. E ela tinha esperado, e esperado. Até que o aborto aconteceu. Foi-lhe embora a vida, e como doía...
Sim, podem haver outras gestações, outras forma de vida, outras promessas... Mas a porta trancada, aquela porta, aquela que dava acesso a tudo, aquela que só tinha uma chave mestra, essa tinha sido trancada pra sempre... Do lado de dentro, em algum lugar, se pararmos pra ouvir com atenção, ainda podemos escutar os gritos abafados, o desconforto estrondoso das lágrimas que caem no mais completo silêncio...
A vida, isso que chamamos vida, continua impassível do lado de fora. Porque é assim que as coisas sempre são. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Despedidas

Ano maluco, ensandecido. Plinio Marcos me invadiu, com toda a sua paixão, com toda a sua intensidade, com todo o desespero que marca sua obra, num paralelo perfeito.
Nesse ano os extremos foram absurdos. Minha vida explodiu. Transcendi limites para baixo, para cima, direita, esquerda... aleatoriamente...
Acabamos. Acabamos maravilhosamente.
Mas é sempre tão doloroso encerrar ciclos... Especialmente um tão intenso quanto esse...
Então é momento de adeus. Adeus geral.
Morrendo essa noite pra ressuscitar amanhã...

sábado, 1 de setembro de 2012

Só o momento existe


Só o momento existe.
Hoje estou olhando para todo mundo e tendo a sensação que são todos crianças. Estado de graça. Uma vez me disseram que amar é enxergar cada pessoa como Deus sonhou (antes de se transformarem no que acabaram se transformando depois). Faz sentido.  Um Deus onisciente não sonharia. Não faz sentido sonhar quando você já sabe tudo o que vai acontecer. Mas o Deus presente no meu coração sonha. Sonha com o dia em que o ser humano vai surpreendê-lo com seu livre arbítrio e também ensiná-lo a amar mais e melhor. Sim, o Deus do meu coração aprende a amar com sua criação, tal qual a gente vai aprendendo com os filhos os amores infinitos e incondicionais que nos permitimos sentir.
Hoje todo mundo que eu olhei tinha um brilho lindo nos olhos, especialmente quando sorria. Vontade que essas crianças nunca deixassem de sorrir... Por quê nós todos nos perdemos tanto em sofrimentos desnecessários?
Ontem tava tentando responder pra mim mesma e outros sobre quem somos, de onde viemos, para onde vamos... Eu tenho certeza que só estamos juntos nesse mundo pra aprender a amar melhor. Ou amar de verdade, sei lá. E a gente vai fazendo experimentações. Experimenta com mãe e pai, irmãos, amigos, homens e mulheres, depois experimenta com os filhos... Com cada um deles a gente vive uma forma diferente de amor e vai saboreando, e vai vendo o gosto que isso tem e os sentimentos que produzem na gente...
Nada na vida me faz mais feliz que gente. E pedagoga que vou, ver além do que mostram, entender o potencial que tem e puxar pra luz. Como pedagoga, sou meio parteira. De alguma forma vejo o que brilha por dentro dos machucados, das feridas, dos medos. Essencialmente aprender significa remover muros e deixar de ter medo. Pra poder ser livre. Eu sinto que vivo pra isso. Pra ajudar as pessoas a se trazerem verdadeiramente pra luz, parindo a si mesmas num trabalho de parto que é pura metamorfose.  Não antes de parir a mim mesma, com todas as noites escuras, os desesperos, os fantasmas, as saudades, os pavores... Porque experimentar tudo isso me ajuda a reconhecer isso nos demais, me ajuda a todo dia lembrar que o outro é feito da mesma essência que me habita...
Tá bonito esse caminho... Muito bonito. E eu, que tantas vezes quis me agarrar em perspectivas de futuro, agora estou inteira no hoje. Experimentando e vivenciando.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Plínio Marcos

Eu sempre confiei na vida, e ela volta e meia continua a me mostrar que tenho razão em confiar. Porque tudo é sempre o melhor que podia ser quando aconteceu. E se não foi diferente é porque naquele momento não podia.
E é nesse contexto que eu vejo a montagem de Plinio Marcos. Escrevi pro meu grupo de teatro sobre ele, e sobre a forma como me apaixonei por ele, e sobre a finalização do trabalho que se aproxima...


... Não importa de quantas peças de teatro eu venha a participar, Plinio Marcos vai ficar marcado na minha alma como o cara que abriu o mar em dois. Tudo na minha vida pode ser dividido em antes e depois de Plinio. Foi pancada atrás de pancada, em todos os sentidos. No teatro e fora dele. 

Vocês devem se lembrar que nas primeiras aulas eu só chorava. Era tudo de muita intensidade pra mim. Os exercícios iniciais eram muito desafiadores. Um universo de violência, agressividade, grosseria, selvageria... O modo como ele expõe a miséria humana de uma forma que faz qualquer um se identificar, de uma forma que a gente torce pro Tonho matar o Paco e depois fica se sentindo mal quando isso realmente acontece. Da forma como qualquer mulher se sente abandonada quando a Neusa Sueli senta no chão. 
E então, quem eu sou? Dei sorte na vida e só por isso não saio assassinando pessoas por aí? O que acontece quando a gente chega no limite do limite do limite?
Algumas coisas horríveis aconteceram comigo nesse semestre. Estive no inferno. Coisas que eu não desejaria pro meu pior inimigo se eu tivesse algum. Minha mãe morreu, e antes de morrer “ficou morrendo” por um tempo insano, num gerúndio de dor e sofrimento que parecia que nunca chegaria ao fim. Em algum momento disso, nem sei como, tive que lidar com outros sentimentos intensos enquanto lidava com a perda da minha mãe, tudo ao mesmo tempo,junto e misturado, e logo em seguida vieram à tona lembranças a respeito da minha infância, coisas pesadas pra valer que a memória tinha apagado completamente, e vieram à tona de repente, quando tudo já estava traumático mesmo, pra ser a cereja do bolo todo. E eu tive que lidar com isso também, com os motivos pelos quais eu tenho dificuldade de me aproximar fisicamente das outras pessoas e imponho barreiras seguras, até corporalmente, para que ninguém se aproxime demais de mim, em níveis que não dou conta de bancar. 
Enfim, de repente eu não tinha condições de lidar com mais nada e me mantive por uns tempos digamos assim “desconcentrada”. Meio dentro meio fora do planeta, porque envolver-me e concentrar-me significava estar 100% presente, e voltar pro meu corpo doía. Era preferível estar flutuando em algum lugar entre o ser e o não ser. 
Mas a gente não fica nesse lugar pra sempre. Estou agora trabalhando com todos os furacões que me desmoronaram nos últimos tempos e não deixaram pedra sobre pedra em pé em mim. Aprendi que sou uma pessoa bem difícil de derrubar, mas eu também caio. E caio pra valer.
Amor... Um sentimento que também andei revisitando. A gente não ama as pessoas porque elas são perfeitas. E quando a gente ama, ama com imperfeição e tudo. Ama inclusive por causa das imperfeições todas. 
Mas quando a gente deseja ser correspondido e isso não acontece da forma esperada, a gente fica tentando achar explicação pra isso nas nossas imperfeições e acaba ficando ainda mais triste. E se a gente não se resgata desse lugar, acaba preso a vida toda dentro desse círculo vicioso: Condena as próprias imperfeições, não se ama, não é amado e explode o mundo. 
E desse lugar olhei de novo pros personagens do Plinio... Meu Deus, eu sou cada um deles, dentro das suas fragilidades, seus enganos, seus descaminhos, suas feiuras. Como era fácil olhar de fora e apontar o dedo do alto da minha “perfeição bem resolvida”. E como dói olhar de perto. 
Esse convite pra “olhar de perto a miséria humana” eu acho que entendi bem. Muito bem. 
E aí fiquei pensando que queria partilhar tudo isso com vocês, porque no final das contas nosso espetáculo é pesado. É pesado porque é um espelho, um convite pra que cada um se olhe e enxergue seu próprio ódio no Tonho, sua violência nos 25 homens, seu desespero no Zé, sua falta de auto-estima na Neusa, seu desejo de revolução na Célia, sua necessidade de aparecer na Lisa, e tanto, tanto mais... 
Plinio assombrosamente escancara aquilo que a gente queria mais que ninguém soubesse ao nosso respeito. Que todo mundo sente, todo mundo tem, mas não assume. Não assume porque tem medo, porque acha que as fragilidades são menos dignas de amor... Porque no fundo tudo que todo mundo quer é amar e ser amado, muito e sempre. E esse desejo de amor que não se sacia, se levado no limite, aparece sob a forma de todos os monstros: na exigência de obediência, no desejo de aparecer, na opressão, na violência, na falta de auto-estima, no desejo de matar e todo esse resto que os personagens do Plinio mostram...
As fragilidades são dignas de amor sim. Na verdade, há beleza nelas. Eu tenho muito orgulho do nosso espetáculo. Não é mais um universo de violência, agressividade, grosseria, selvageria... Pelo menos não só isso. É também a beleza da fragilidade, do desejo de ser bonito e de ter valor...
“Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor, que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor.” (Plínio Marcos)

Que assim seja. Hoje. Um novo caminho. Pela harmonia e pelo amor. 
É assim com toda a alma, inteira, que vamos estrear naquele palco no dia 12. 



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ridícula. Sim, ridícula.

E então eu agi da forma mais ridícula possível. Dá vergonha.
Estarrecida agora. Eu jamais fiz isso com ninguém, nunca tinha sido assim.
Sim, eu nunca tinha perdido a linha dessa maneira.
Descontrole. Sem dúvida, verdadeiro descontrole.
Espero que pelo menos tenha dado tempo de parar antes de prejudicar quem quer que seja. Além de mim, claro.
Enfim, agora sim teve um final. Tudo o que nunca teve um começo teve agora seu final.
Não mais. Nada mais.
Esperar assentar. Esperar a vergonha passar, a coisa toda parar de doer, e depois voltar a dizer bom dia. E até quem sabe um dia poder ser amigo de verdade.
Aliviada?
Eu estaria vivendo uma tragédia, se não fosse engraçado... Sim, de fato, não deixa de ter uma certa graça uma situação assim tão ridícula, tão absurda, não deixa de ter graça que uma capricorniana tão previsível quanto eu pudesse ter comportamentos, pensamentos e sentimentos tão insanos.
Respiro profundamente hoje. Insana ou não, me alivia saber que não havia nada que pudesse ter sido diferente. A coisa toda nunca esteve na minha mão. Mesmo que eu tivesse sido perfeita, o resultado seria o mesmo. Isso me alivia, me ajuda a me perdoar.
Menino, você que tem o brilho do Sol na menina dos olhos... Segue em paz e seja muito feliz, conte com meu amor e gratidão... Esse é o ultimo post pensando em você.

sábado, 25 de agosto de 2012

Chegou a hora. De me segurar ou me deixar ir


Desde que nos conhecemos eu sempre botei tudo a perder. Sempre. Porque eu estive escancarando verdades o tempo inteiro. Aquelas verdades mais insanas, mais incômodas, de forma que ele agora conhece todos os meus defeitos, meus complexos, meus exageros... Tudo o que há pior em mim. É justo e previsível que seu ponto de vista traga exatamente essa impressão. Não posso fazer mais nada.
E sim, finalmente eu entendi que não passo de uma mulher humana. E pior: Eu adoro ser uma mulher humana. Eu gosto de poder gargalhar. Eu gosto de me jogar com tudo nas forças do vento. Eu me atiro do abismo e deixo o vento me trazer de volta, e quando ele não sopra eu me estatelo no chão e quebro em mil pedaços. E não desisto. Porque ainda que Eros não seja amor, é ele quem nos tira do lugar e nos leva na direção certa pro amor nos encontrar. E se não encontrar também foda-se, pois em algum momento eu já tinha resolvido que não queria ser santa, queria ser humana, o mais humana que eu conseguisse ser, mesmo se isso doesse. Sem idealizações, sem busca de perfeição. Deus me fez assim e foi assim, exatamente assim, que ele olhou e achou bonito. E permitiu que vivesse.
E também, tem uma hora que a gente acaba perdendo o medo depois que todos eles se concretizam.  Vou ter medo do quê? De me machucar? De me ferir? Eu já vivi isso, eu sei exatamente o quanto pode doer. Eu já perdi tudo o que poderia me fazer falta. E estou curiosíssima agora pra saber o que sobra depois disso.
Nunca convivi com tanta verdade antes. Passei uma vida inteira tentando ser adequada e fazer sentido. E agora não há nada que esteja equilibrado, nem harmônico, nem tranquilo. Mas isso, essa confusão de fios entrelaçados e enroscados, sou eu. Eu que não sei mais raciocinar com clareza, eu que não acho que tenha que raciocinar agora, porque meu instinto é quem tem gritado ultimamente, é ele quem tá ditando as regras e eu sei que esse tempo tá acabando, mas que é importante.
Eu não me sinto mais superior como me sentia antes. Eu não me sinto mais evoluída que os violentos agora. Eu não me sinto melhor que quem quer que seja.  E estranhamente, eu me sinto apenas melhor do que eu mesma, quando, ainda que não dissesse em voz alta pra ninguém e não admitisse nem pra mim mesma, olhava pra todo mundo com disfarçada arrogância travestida de simpatia.
Agora essa historia tá chegando ao fim. Não porque eu queira. Eu sinto que poderíamos continuar aprendendo um com o outro pela eternidade afora, há tantas coisas nele que eu queria conhecer mais, que me ensinariam. E sim, mesmo em meio ao “desequilíbrio” eu também tinha muito pra ensinar. O que foi que atrapalhou? Medo? Preconceito? O passado? O acaso? É triste pensar que eu nunca vou saber o que foi que realmente aconteceu. E não há nada que eu possa fazer.
Talvez isso já não importe. E já sei que está chegando ao fim. Por mais que eu queira ficar, não tem lugar pra mim, e isso dói, mas é a realidade e é necessário lidar com ela da melhor forma que eu puder. E então chega. Hoje eu ainda estou aqui, apenas porque existe algum lado teimoso que deseja ardentemente que ele me peça pra não ir embora, pra continuar junto, pra que possamos devagar e sempre pelo menos experimentar, ver se é possível a felicidade que eu vi...
Mas eu provavelmente enxerguei o que não existia. Nunca estivemos juntos. Eu vi, vi com tanta força, e achei tudo tão lindo... Mas simplesmente nada daquilo que eu vi esteve lá algum dia. Era tudo alucinação minha.  Se alguma vez tivesse estado lá, se houvesse qualquer tipo de ressonância, eu teria respostas. Nunca houve. Eu estava uivando pra lua na beira do abismo, e a resposta que escutei era apenas o eco. Mas eu lamento. Lamento tanto, lamento com toda a minha alma não poder ficar.  Mas eu não posso, não tem lugar pra mim. E ponho-me no início da estrada, da estrada que eu sei que vai me levar pra longe, muito longe... Me segure agora, se quiser. Nem precisa me prometer coisa nenhuma, só me dizer pra ficar. Não haverá outro instante. Diga uma única palavra, e eu fico. Sem pergunta nem cobrança.
Caso contrário, não faça mais nada, e assim me liberta pra ir. Agora.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Reconstruindo o mundo

Enfim. Eu soube quando chegou o momento da desconstrução. E camada a camada foi caindo de mim. E quanto mais de coisa dolorida que tinha embaixo e eu não sabia... Eu tenho motivo pra chorar pelo resto da vida. Mas sei que tenho motivo pra rir e me alegrar também pelo resto da vida. E talvez... Talvez todo mundo seja assim.
Quanta coisa tive que destruir recentemente... Não sobrou nenhum lugar seguro onde eu pudesse me proteger. E isso era extremamente necessário. E eu fui de perda em perda, de golpe em golpe, até achar que não daria conta de mais nenhum. Até doer de uma forma que eu jurei que não podia suportar mais nenhum minuto. Depois de perder minha mãe, perder também a inocência de lembranças tão antigas, e perceber que isso faz diferença.
Mas agora é hora de reorganizar.
E então tem uma mulher comigo. Uma mulher que de alguma forma representa tudo o que eu gostaria de ser. E ta me ensinando o que ela sabe.
E eu já aprendi umas coisas bem malucas. Como por exemplo, o mínimo que preciso fazer é ficar amiga do meu próprio corpo e entender como ele funciona. E saber mais sobre meus ciclos emocionais e tudo o mais."Porque nós mulheres temos muitos momentos diferentes ao longo de um mês" ela diz. E eu tenho orgulho de ser elencada no mesmo pronome "nós". O que me faz pensar que estou indo bem.
Agora eu caminho todos os dias. Não é pra emagrecer. Nem pra zerar meus personagens. Mas porque preciso. Pra equilibrar as demandas da minha cabeça, agito meus pés e minhas pernas. E por dois dias tem funcionado, estou mais disposta e menos aflita.
A mente, ela disse, é só um dos sentidos humanos. Uma das formas possíveis de se relacionar com o mundo. Mas existem muitas outras. E a mente é como uma criança: Ela precisa de cuidado, amor, alimento e  LIMITES. Precisa entender que não é sempre o centro.
E ultimamente ela tem estado muito brava comigo, pois há uns dois meses que todas as viradas e revoluções da minha vida foram muito intuitivas, quase nada passou pela aprovação dela. Sim, se ela soubesse que eu me apaixonaria, daria uma guinada na forma como vinha vivendo, faria declarações explícitas do meu amor mesmo no escuro, e depois mesmo sabendo que isso não ia mudar nada...  Se ela soubesse disso antes que eu fizesse, ela com certeza me gritaria: "Pare com isso, você está louca????" O fato é que quando ela me viu eu já tinha ido, já tinha feito, e ela se sentiu traída. E quando eu caí no vácuo ela me disse irritada: "Tá vendo o que vc fez? Se machucou. Agora fique aí quietinha, chega, me obedeça de uma vez."
E eu, bem nessa hora, frágil e destruída, obedeceria. Pra sempre, pro resto da vida, só para não ter que lidar com outros "prêmios" pela minha coragem...
Mas essa mulher entrou no caminho. E ela me disse que a mente é essa criança que precisa de limites, e eu pensei que meus tsunamis foram na verdade inspirações de outros sentidos que não conheço ainda. Mas ela disse que precisamos aprender a direcionar nossos  sentidos pra uma melhor experimentação da vida. Equilibrando a importância de cada um.
E ela disse também que é bom que eu tenha um altar. Só eu posso saber o que considero sagrado pra estar nele, mas é preciso que ele exista. Que o Divino simbólico precisa estar ao meu alcance, pra ajudar minha mente a silenciar quando tiver que silenciar. A mente fica tranquila quando encontra um símbolo diante do qual ela possa se identificar.
E o corpo? Corpo físico, corpo sutil, e eles se refletem o tempo todo, e o que fazemos no corpo físico influencia o corpo sutil, e vice versa, e as energias.
Prestar atenção na respiração...
Tanta coisa nova! Tanta coisa que não conheço, mas que, sim, faz sentido e eu tenho que experimentar.
E a necessidade de me tratar com amor e respeito, fazendo comigo apenas o que eu faria com uma amiga muito querida, e dizendo apenas as verdades da forma como eu diria pra quem eu amo... Tão simples, e tão difícil.
Todo o resto pode esperar eu aprender a me amar do jeito certo. Afinal, eu esperei 35 anos pra conseguir fazer isso. E agora, depois de toda essa desconstrução, eu sinto mesmo que posso conseguir, e tudo está ficando tão diferente.
Gratidão. Mesmo diante do caos mais profundo, eu sempre fui capaz de reconhecer os professores que a vida ia colocando no meu caminho, e fui aprendendo, e continuo aprendendo o que cada um deles tem de melhor pra me ensinar. Há quem me ensine amor, tolerância, amizade, respeito, ternura... E pra alguns eu sei que posso ensinar um pouco da minha fé. Que acho que de tudo foi o que nunca me faltou.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

E então veio a vertigem do abismo... E não havia mais nada além de um imenso frio...

Pra que tanto frio? Pela primeira vez me encolho, fico em silêncio, engolindo tudo o que eu gostaria de dizer, porque não há lugar, não há lugar...
Antes que eu possa evitar, as trevas envolvem tudo.  já não há contentamento, já não há mais vida pulsante que corre... Sequer existe algum desejo agora...
Tudo está aí. Eu olho pra tudo o que foi, pra tudo que poderia ter sido... E tanto faz. 
Mais nada. Nem dor, nem tristeza, nem aquele desejo desesperado de me agarrar em alguma forma de vida para não ser arrastada...
Não sobrou resistência. Não sobrou força pra ficar em pé ou procurar solução. Não sobrou lágrima. 
Depois de um tempo, percebo que nem o frio incomoda mais. 
Olho pra trás, não há caminho pra onde voltar. Olho pra frente, nada. Começo a me aninhar por aqui mesmo, o meio da estrada, procurando um lugar um pouco menos desconfortável onde eu possa ao menos repousar minha cabeça, só por agora, só por agora... Um cansaço profundo. É minha alma que está cansada. É ela que se recusa a continuar em pé, a tentar ser o mais valente que puder... ela se recusa. Ela quer ficar quieta, sem se mexer. Ela só quer não precisar ouvir mais nada, nem falar mais nada... Ela só quer poder silenciar, silenciar o mundo, reduzir tudo à escuridão e ao silêncio, onde ela pudesse finalmente dormir...


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Vai passar. Ou assim espero


Vontade de sair correndo, e correr, correr, como se eu pudesse ir longe e longe até desaparecer. Não sou quem sempre pensei que fosse, e não tenho a menor ideia do que estou vendo quando olho pra mim então. Um gigantesco escuro.  E isso é bizarramente hilário. E experimento esse estado estranho, alterado, quase como se eu estivesse bêbada, mas eu nem tomei nada... Talvez devesse tomar. Quando nenhuma luz parece se apresentar e você já está caindo há muito tempo, desaparece a vertigem.
Há quanto tempo não há chão algum embaixo dos meus pés? Esse chão estará de volta algum dia? Tudo o que existe agora é a queda. Queda livre, os braços e pernas deixam de se agitar, já não precisam se agarrar. Já entenderam que não há nada por perto. Pelo menos nada que dê conta de me segurar com força... De alguma forma eu passei um tempão pedindo com desespero pra ser segura de alguma forma, só um pouco, e eu implorei por isso pra não chegar no lugar que estou agora. E agora que cheguei já não peço mais nada. Sim, eu sei que não estou bem. Mas um lado raivoso em mim grita “foda-se então!” Afinal, que raios eu tenho a perder agora? Tudo não terá que ser reconstruído de qualquer forma? Que me importa se cair também agora o quase nada que continua? E por acaso algo continua?
Quando a gente não tem como continuar seguindo, e também não pode parar, então foda-se. Com fúria, com raiva, com desespero, mas me sentindo viva, teimosamente viva... Tá doendo, não vai parar de doer agora, e nesse momento nada do que eu faça pode amenizar. Então foda-se. Então eu grito. Se a única coisa que me resta é o grito, então eu grito. Grito todos os gritos do mundo... Um grito infinito que fica ecoando mundo afora.
Eu me pergunto se era necessário tudo isso assim, nessa sequência alucinada, as ondas me afogando com vertiginosa velocidade. E logo vem outra onda, e outra, sem intervalo, sem permitir que eu fique em pé desde a ultima onda que me derrubou, e eu fico procurando onde foi parar a sanidade de estava aqui e eu respondo a mim mesma que foda-se. Não está mais. Acabou-se a sanidade. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

É assim


Quando eu vou trabalhar longe, como é o caso agora, a solidão bate com bastante força. Por mais que eu conheça as pessoas, e um monte de gente nova... Puxa, é tão cansativo, que chega uma hora que o que a gente mais quer é ficar num cantinho tranquilo e em silêncio... Mas o mesmo tempo dá vontade de abraçar um amigo (pode ser amiga também) e deixar-se ficar, só um pouquinho... Não precisava nem ser muito. Porque eu me recupero rápido...
São muitas energias diferentes ao mesmo tempo. A energia de 50 pessoas, por oito horas seguidas, todo mundo concentrado em mim. OK, é o meu trabalho. Mas é como se eu fosse minguando conforme as horas passam. No caso desse grupo, não é uma troca. Eles estão obrigados a estar ali, e mais da metade está participando do curso porque não teve escolha. E não há nada que eu possa fazer quanto a isso a não ser deixar o mais agradável possível. Mas eles ficam com raiva e chegam batendo de frente e criticando tudo E a gente precisa ter um sorriso no rosto e uma resposta que não nos comprometa. Cansa. Cansa muito Não é só o cansaço físico, é um esforço mental imenso... Acho que nem é mental, é um desprendimento de energia mesmo... como se fosse uma doação de sangue sem fim.
Responsabilidade toda minha. Minha identidade profissional é um homem. Tudo eu mato no peito, eu me garanto, eu ofereço segurança até pro chefe. “Deixa que eu resolvo”. E resolvo mesmo. Hoje recebi vários elogios pelo meu trabalho, que finaliza por aqui amanhã.
Mas... estou a ponto de chorar... de pura exaustão. E quando eu voltar para casa, as demandas serão ainda maiores.
Só por hoje, eu queria não ter mais nada pra fazer.
Só por hoje, eu queria sair pra ir no cinema e dar beijo na boca.
Só por hoje, eu queria não ser responsável por mais nada... Porque tem dias que brincar de Atlas é muito dolorido.
Só por hoje eu só queria conseguir chorar, e chorar, e chorar... Tudo o que ainda não deu tempo. E essa sensação que não passa, de que eu não posso chorar porque se cair eu vou me quebrar, e então eu tenho que estar de pé.
Eu não tenho tempo de me deixar ficar frágil.............
Mas já estou.
E nesse momento não há nada que eu consiga fazer. A não ser deixar vir.
A solidão, a dor, a desesperança, a saudade, o desejo, as frustrações todas, e esse cansaço, imenso cansaço...
Acho que chorar vai me deixar mais descansada. Amanhã tenho que estar inteira e ligada no 220 de novo. E depois de amanhã, e depois de depois de amanhã... Sustentando o que precisa estar em pé.
Mas nesse momento é minha noite escura. Meu deserto. Tá difícil ver qualquer coisa que seja bonita agora...  


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Dá pra diminuir? Não, não dá.

No rótulo da minha vida podia estar escrito: aprecie com moderação. Mas não adiantaria. Passei muito tempo imóvel. E agora tenho uma sede intensa de tudo ao mesmo tempo. Desde a doença da minha mãe, então, eu senti que ela não tinha mais tempo de ser feliz, mas eu tinha. E podia.
E então eu amo como nunca amei ninguém. Amo com toda a minha alma.
E eu exerço minha maternidade como nunca exerci antes. Quando estou com o meu filho não existe mais ninguém.
E eu estou comprometida com o meu trabalho também, desde que consegui voltar a raciocinar.
Sim, eu sei que deveria ser mais suave. Se eu fosse mais suave, se eu pegasse mais leve, não teria assustado o homem que eu amo e que agora é definitivamente meu amigo. Eu sei.
Se eu fosse mais suave, teria saído do meu trabalho sem protesto do meu chefe, que além de não querer que eu saísse acabou me oferecendo melhores condições de trabalho...
Mas a questão é que então não seria eu. Seria uma personagem. De novo.
E eu estou repleta de personagens. No que realmente importa, eu não os quero.
O que quer que tenha que dar certo, ou errado, que seja por mim. Que seja porque estou sendo, e sendo de verdade. Assim como tem sido.
Mesmo se o furacão for intenso demais e sair assustando quem encontrar pelo caminho, esse furacão é o que eu sou.
E que, um pouquinho a cada dia, tô aprendendo a amar.
Sim, sou intensa demais. Nunca fui, mas a verdade é que agora eu sou. Quem me conhecer leva o pacote todo do meu furacão. Assim que é.

sábado, 4 de agosto de 2012

Os sacramentos

Acho que o primeiro sacramento foi o fogo em minhas mãos.
O segundo foi a Virginia. Quando ela colocou pra fora tudo o que eu gostaria de dizer. Quando eu e o Diogo Fillipo subimos no palco do Festival pra fazer aquela cena, da qual eu tentei desistir tantas vezes, mas ele não deixou. 

Virginia sentada na estação de trem, ele chega correndo.
Virginia: Sr. Wolf, que surpresa agradável.
Leonard: Talvez possa me dizer exatamente aonde pensa que vai.
Virgínia: O que eu fiz?
Leonard: Fui te procurar. Não te achei.
Virginia: Você estava no jardim. Não quis incomodar.
Leonard: Me incomoda quando você desaparece.
Virginia: Eu não desapareci! Fui caminhar.
Leonard: Caminhar? É só isso, uma caminhada? (Virgínia suspira cansada). Temos que voltar pra casa. Nelly está fazendo o jantar. Ela já teve um dia difícil. É nossa obrigação comer a comida da Nelly.
Virginia: Não existe tal obrigação. Não existe NENHUMA obrigação!
Leonard: Você tem obrigação com sua lucidez.
Virginia: Não agüento mais essa prisão! Não agüento mais essa opressão!
Leonard: (Repreendendo) Virgínia!
Virgínia: Sou cuidada por médicos em todo lugar! Sou cuidada por médicos que me informam os meus próprios interesses.
Leonard: Eles sabem dos seus interesses.
Virgínia: Não sabem! Eles não podem decidir o que me interessa.
Leonard: Virgínia, imagino que seja difícil pra uma mulher do seu...
Virgínia (interrompendo): Do quê? Do meu o quê, exatamente?
Leonard: Talento perceber que talvez não seja a melhor pessoa pra julgar sua própria condição.
Virgínia: Então quem é a melhor pessoa?
Leonard: (Gritando) Você tem um histórico! (Pausa) Você tem um histórico de reclusão. Te trouxemos pra cá pelo seu histórico de angústia, mau humor, desmaios, por ouvir vozes... Te trouxemos aqui pra te salvar do mal que faz a si mesma. (Pausa) Você tentou se matar duas vezes! Eu vivo diariamente sob essa ameaça. Eu montei a gráfica, nós montamos a gráfica não só pelo trabalho, não totalmente pelo trabalho, mas para que você tivesse um meio seguro de concentração e cura.
Virginia: Como bordado?
Leonard: (Gritando) Foi feito pra você! Foi feito para sua melhoria! Foi feito do nosso amor! (Pausa) Se não te conhecesse melhor, acharia ingratidão sua.
Virgínia: Eu sou ingrata? Está me chamando de ingrata? Minha vida foi roubada de mim. Vivo numa cidade que não desejoviver. Vivo uma vida que não desejo viver. Como isso foi acontecer? (Senta-se) Está na hora de voltar pra Londres. Sinto falta de Londres. Sinto falta da vida de Londres.
 Leonard: Essa não é você falando, Virginia. Esse é um sintoma da sua doença.
Virgínia: Sou eu.
Leonard: Não é você.
Virgínia: É a minha voz.
Leonard: Não é sua voz.
Virgínia: É minha e só minha.
Leonard: É a voz que você escuta.
Virgínia: (Gritando) Não é, é a minha. Estou morrendo, virando pedra nessa cidade.
Leonard: Se estivesse em condições de pensar, Virginia... lembraria que foi Londres que te deixou deprimida.
Virgínia: Se estivesse em condições de pensar? Se estivesse em condições de pensar?
Leonard: Te trouxemos pra cá para te trazer paz.
Virgínia:  Se estivesse em condições de pensar, eu te diria que eu luto sozinha e no escuro. No escuro profundo. E só eu sei, só eu posso entender minha própria condição. (PAUSA) Eu gostaria, para o seu próprio bem, que eu pudesse ser feliz nesse marasmo. Mas se for pra escolher entre esse lugar e a morte, eu escolho morrer.
Leonard: (Pensando) Muito bem. Londres então. Voltamos pra Londres.
Silêncio e os dois se olham.
Leonard: Está com fome? Eu estou com fome.
Virgínia: Vamos. (Levantam e vão caminhando até a saída) Não se pode encontrar  paz evitando a vida.

Sim, eu falei o texto da Virginia com toda a força da minha alma. Eu defendi a voz que gritava dentro de mim, eu segurei meu desejo de agir com autonomia, sem a permissão ou concordância de quem quer que fosse, eu olhei pra vida e disse que não tinha escolhido nada daquilo, eu me indignei comigo mesma, porque mesmo assim eu tinha me deixado chegar num lugar onde nada era o que eu tinha escolhido.
Vou amar a Virginia pra sempre. Foi minha primeira personagem "de verdade". Mergulhei nela assistindo o filme quinhentas mil vezes, deixei que ela mergulhasse em mim, e nosso diálogo foi transformador. 
Não se pode encontrar a paz evitando a vida... E que bom!
Porque um dia eu me joguei, sem rede de proteção, sem nenhuma garantia, um dia me senti segura pra simplesmente saltar e confiar que não ia morrer despedaçada lá embaixo... Não porque eu não tivesse medo, mas porque se fosse pra escolher entre esse lugar e a morte, se não ouvesse nada além daquilo para ser encontrado, então eu morreria mesmo.
E... bem, não me despedacei. Nem morri. De alguma forma eu fui acolhida com amor. Não que não tenha sido dolorido. Houve momentos em que realmente quase morri de frio. Meu corpo tava molhado depois de um banho de oceano, o vento soprava e não havia nenhuma toalha, nenhum casaco... Só a pele, frágil e sozinha. E o frio. Frio que chegava a doer.
Valeu a pena. Continua valendo. Acho que sempre vai valer. 


terça-feira, 31 de julho de 2012

E hoje, de alguma forma, um cansaço...

Enfim.
A ficha caiu.
Não tenho mais mãe. Agora EU sou a mãe. Agora sou eu quem cuido. Do meu pai do meu filho, dos meus irmãos, dessa casa, do trabalho... de tudo.
Minha mãe tem auxílio funeral, correspondente a um mês de salário dela. Mas tem que dar entrada nisso na Secretaria da Fazenda.
Meu pai vai ter pensão porque minha mãe era funcionária pública. Mas tem que ir atrás disso.
Todas as contas da minha mãe em banco precisam ser fechadas. Todos os cartões precisam ser cancelados.
Essa casa tem uma TV a cabo que é paga todo mês mas que não funciona. Tem que mandar consertar.
O chuveiro do meu quarto derruba o disjuntor se o banho passa de 05 minutos. Tem que trocar o disjuntor.
Boa parte das coisas do meu pai continuam entulhadas no meio do meu quarto, e eu preciso esperar ele fazer, porque as coisas são todas dele. Ele tem que decidir o que é pra jogar fora, o que vai manter. Com muita delicadeza, que o momento é sensível.
Preciso ir na auto-escola. E na academia. E falar com o terapeuta. E com a advogada do divórcio. Comprar roupa de frio pro João, que as dele estão todas pequenas demais. Cuidar do meu pai, fazê-lo ter a segurança de não estar sozinho.
Preciso trazer um bando de coisas que ficaram na outra casa e que ainda não caberiam aqui.
Preciso retomar boa parte das atividades do trabalho.
Preciso decorar o texto da Madalena. E relembrar as falas de Lisa. E achar o figurino delas.
Preciso decidir com meus irmãos, dentre essas coisas, quem vai fazer o quê. Pra gente dividir um pouco.
E então eu olho pra tudo isso....
E, sério, me bate um cansaço tão grande... Não sei nem por onde começar a organizar. Lutando bravamente contra a imobilidade, a paralisia, a vontade de dormir e só acordar daqui a seis meses, com tudo isso resolvido, terminado...
Repito o mantra das mães: Vai passar, vai passar, vai passar...
Mas tem dias que tudo parece tão grande e eu tão pequena...
Mas vai passar.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Fim

E então, enquanto eu escrevia o post anterior, o coração da minha mãe deixava de bater. Uma hora ou pouco mais depois de eu pedir que ela fosse... Ela já não estava mais entre nós.
Daí em diante foi aquela correria. Corpo, contato com hospital, sepultamento. Familia. Avisos a todo mundo .
Hoje é o dia seguinte. Não tenho mais que organizar as noites com ela, não tenho mais que guardar o dinheiro pra pagar as plantonistas do dia, não estou mais ansiosa pensando que a qualquer momento o telefone pode tocar. Ele já tocou.
Acabou. Acabou toda a vida que eu conhecia. Por minha escolha acabou também todo o resto. Organizar tudo agora. Meu quarto, minha casa, meu pai, meu filho, meu trabalho, meu divórcio, meus horários, o teatro.
Academia a partir de hoje. Porque preciso zerar o meu corpo. Se quero continuar sendo atriz, (e já sei que isso é o que realmente me realiza), eu preciso de um corpo diferente desse. Ele tem que comportar qualquer personagem. Pra isso eu tenho que emagrecer no mínimo uns 20 quilos. Pra já. Pra que no trabalho com Shakespeare eu já possa encaixar-me em qualquer papel e não precise ser sempre a mãe de alguém...
E o meu amor, imenso amor que guardo aqui?
Pois é, esse ainda me dói. E vou ter que aprender a lidar com isso. E ok, é exatamente o que vou fazer.
Ele é meu amigo. E ponto. Vou ter que conviver com isso, com toda a gratidão pelo nível dessa amizade.
Ele tem histórias. Ninguém chega zerado ao outro. Infelizmente eu também tenho as minhas. E elas também me doem. Sete anos de casamento com um homem que me amava (e me ama até hoje), mas que nunca me tocava. Não sentia atração física por mim. Não tinha tesão. E eu me sentia frustrada, problemática, achava que a responsabilidade disso era toda minha e que deveria haver algo que todas as outras mulheres soubessem menos eu para serem sensuais, atraentes ou sabe-se lá o raio que o parta que ele estivesse procurando e não encontrava em mim.
Isso não fez nada bem pro amor que sinto por mim mesma. Machucava. Machucava todo dia.
E agora de alguma forma vejo acontecer bem parecido, doendo no mesmo lugar... Uma simples constatação de que ele é meu amigo porque não se sente atraído por mim, não tem vontade de beijo na boca, nem de sexo, nem de nenhum contato físico que remeta a alguma coisa diferente de um cuidado e carinho imensos.
Se ele sentisse tesão por mim já seria complicado, porque eu teria medo, Mas dessa forma, então... muito mais.
Não banco mais. Tô numa fase em que eu me jogo nos meus sentimentos, e não ligo de me machucar. Quero mais é viver de verdade, mesmo que isso me cause algumas feridas. Mas não exatamente no mesmo lugar que foi machucado uma vida inteira, e agora precisa cicatrizar. A gente não é só alma se comunicando. A gente é corpo, um corpo que quer e precisa ser aceito, desejado... Eu não sei lidar com isso, mas preciso aprender. Eu não sei o que fazer com meu corpo, não soube a vida inteira o que fazer com ele. Eu não me sinto em casa dentro dele, é como se ele fosse uma coisa estranha que não representa quem eu sou de fato, um peso que eu carrego comigo pra todos os lugares. Mas agora ele grita pedindo atenção, pedindo pra ser acolhido de fato, pedindo pra se integrar em quem eu sou.
Tá na hora de sintonizar no mundo fisico. Entrar em contato com meu corpo, experimentá-lo de fato, acolhê-lo, e (por quê não?) sentir esse corpo desejado. Por mim e pelo outro. Eu preciso muito disso. Eu preciso muito saber que corporalmente não sou uma mulher deficiente, que repele os homens, que não conseguem enxergar nesse corpo uma mulher. Eu sei que é absurdo, mas é assim que vejo, que sempre vi. E sei que isso é uma responsabilidade inteiramente minha e só eu posso resolver.
Então não dá. Amor sem contato físico é amizade. Eu aceito a amizade. Mas ao mesmo tempo então tenho que calar o meu amor. Porque senão ele vai doer. Vai doer a falta da proximidade, e eu vou ficar repetindo pra mim mesma que é claro que as coisas são assim porque tudo o que tenho de atrativo não está no corpo, e é claro que ele não olha pra mim porque ninguém olha, porque meu corpo não existe pra ser visto dessa forma e nunca foi. E eu vou continuar me machucando assim se continuar com isso. Repetindo a mim mesma o que a minha mãe dizia sobre a minha inadequação, sobre eu ser desajeitada e feia. Não. Minha mãe morreu e eu escolho que a partir de agora as coisas são diferentes.
Sim, ele me ama. Ainda que não diga, eu sei, porque ninguém é tão atencioso e fantástico com o outro se não for por amor. Mas atração física é outra coisa. Acontece, não depende da vontade de ninguém. Ele não tem como forçar isso, e me resta entender. E me preservar. Eu sou a única responsável pelos meus sentimentos e minhas escolhas... Eu não banco fazer de novo isso comigo, de ficar á espera de um toque qualquer a me lembrar que sou mulher. Eu tenho que resolver isso sozinha, de forma independente, pra que pare de doer.
E então, nesse momento, eu faço a única coisa que posso: ficar em silêncio. Sem novas mensagens, sem telefonemas, sem procurar mais nada. Aproveitando a parte boa e sendo grata por ela. E mais nada.
O resto pertence a mim.




sábado, 28 de julho de 2012

Agora vai. Por favor.


É. Tá doendo. Essa coisa estúpida e violenta que é ter que lidar com a proximidade da morte. Não, não com a morte em si. Mas com esse “estar morrendo” que parece prolongar-se pela eternidade afora, salpicando tudo de sofrimento. Quanto de sofrimento ainda é necessário?
Eu tenho aceitado tudo até onde consigo. Tenho procurado manter minha cabeça e meu coração concentrados na luz, na alegria, na vida, no amor. Mas há momentos, especialmente nos últimos dias, em que estou mergulhada num cansaço infinito, em que só queria poder parar tudo, dormir uma semana seguida, mergulhada no mais profundo silêncio. Hoje, como Perséfone, retorno mais uma vez ao escuro reino de Hades, onde tudo é silêncio. Ela sufoca, e a falta de ar é quase palpável. É possível sentir fisicamente essa falta de ar, de tão densa. Minha mãe se agarra na cama amedrontada, mesmo sem consciência de quase nada agora. Meu pai fragilizado, meu irmão cada vez mais afastado dessa situação, e minha irmã enlouquecendo.
Ela precisa ir. Sou a única que permanece mais ou menos em pé. Sou a única que ainda consegue ficar sozinha com ela e segurar em sua mão. O quanto é importante e forte segurar na mão! O quanto é possível salvar uma pessoa segurando em sua mão...  Dia desses senti isso com clareza e com toda a força da minha alma...
Hoje eu vou pedir. Vou pedir a ela que não tenha medo de ir. Vou pedir ao Universo que a ajude a sentir-se segura pra ir. Vou pedir a qualquer presença amiga que esteja por perto que possa estender a mão pra ela, amorosamente, e ensiná-la a trilhar o caminho. Ela precisa ir. Eu sei que não sou eu que decido. Mas sei também que tudo já foi consumado. Que a vida é generosa. Que ela merece há muito tempo descansar, recuperar-se, perdoar a si mesma, dar fim ao inferno e estar em paz...
Deus me ilumine pra que eu consiga ajudá-la. Hoje. Esta noite. 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Seja como for...


Tudo parece menos pesado depois de duas horas de sono...
Estou aprendendo todo dia, numa velocidade vertiginosa.
Quando estou com a minha mãe, eu fico durona e sou forte. Mergulho na dor, estou plenamente ali, emaranhada no reino da escuridão infinita. Dói tudo que tem pra doer, mas eu estou ali.
Mas a manhã chega, e volto pras outras coisas da minha vida. E vem a necessidade do viver intenso, de experimentar as alegrias com a mesma intensidade. E eu amo intensamente, e fico intensamente feliz, e dou risada com os amigos, cada instante importa.
E onde está a pessoa que fugiu das emoções uma vida inteira? Que dava um jeito de se ausentar de tudo o que parecesse perigoso, por achar que não dava conta?
Agora só existe um assim seja o presente. O presente multifacetado, ora dolorido de uma dor intensa e profunda, ora tão feliz que parece que só a felicidade existe e está em tudo. E eu estou nesse exato instante, em cada um dos exatos lugares por onde passo. Pela primeira vez na vida...
Seja como for, venha o que vier, que VENHA! Que venha a verdade em todos os sentidos.
Dois aprendizados importantes:
1- O que tem que ser, tem força própria. Vai superar os obstáculos pra acontecer. O que não tem que ser, nem toda a força do universo poderá mover. Não nos pertence o controle sobre a vida e a morte, nem sobre os sentimentos alheios.
2- Quando alguém vive de verdade, todos os outros também vivem. Porque o intenso desejo da vida é acontecer.
Gratidão profunda.
http://youtu.be/WOa9mFRTDq4

domingo, 22 de julho de 2012

Vida-Morte-Vida

O ciclo vida-morte-vida vai se acelerando num velocidade vertiginosa.
Não há tempo para parar, subir à tona pra respirar, não há tempo pra nada.
A vida dela tá se esvaindo na frente dos meus olhos. E eu sinto que chegou o momento. De ajudá-la a pular essa ponte. Ela está morrendo de medo. Não é fácil deixar pra trás tudo o que conhecemos, tudo o que nos é familiar, e se enxergar diante da possibilidade do desconhecido na mais profunda solidão.
De modos diferentes, eu e ela pulando na água gelada. O frio. A desproteção. A vulnerabilidade. Sem armas. Não temos escolha, as armas ficaram todas lá, onde as deixamos quando nos despimos. É assim, de peito aberto que eu e ela enfrentamos nossa história.
Que venha! Que venha a alegria, a tristeza, o amor, a dor... Que venha o que tiver que vir. Que venham as lições, os desafios, os aconchegos... Que venha tudo. Tudo o que for presente para mim agora. Eu receberei, e serei grata, por pura confiança. Confiança de que o que tem que ser tem força. Que tudo acontece pra o melhor, mesmo quando não conseguimos ver. Agora ela dorme e sorri. Acho que está rodeada de amigos queridos. Eu sei, tenho certeza que sou eu a ajudar a fazer essa passagem. Hoje ou por esses dias, só eu poderei ajudá-la com o medo... É o pedido da vida pra mim agora...

sábado, 21 de julho de 2012

Futuro do Pretérito

E nós poderíamos passear no parque numa tarde de domingo com sol. E eu poderia te olhar nos olhos e sentir que, sim, eu poderia mergulhar meu olhar neles encantada, por toda uma existência.
E você poderia tocar flauta pra mim, e eu poderia enxergar embevecida a beleza que você sempre quis mostrar e não teve quem prestasse atenção por tempo suficiente da forma certa.
E poderíamos preparar juntos cenas ou peças de teatro, e eu teria certeza que você seria um parceiro inteiro e presente sempre, porque é assim que você é.
E por vezes poderíamos andar juntos por aí, pelo simples prazer de andar, só pra podermos enquanto isso falar de qualquer coisa que nos viesse à cabeça... E poderíamos rir de histórias inventadas assim, ao imaginar as pessoas que passam.
E eu poderia te chamar pra minha casa numa noite de chuva, sem luz, para construirmos sombras na parede...
Puxa, eu consigo imaginar tantas alternativas! Todas possíveis agora, no presente, nesse presente pelo qual sou grata, que é o único instante que existe. Meu tempo é agora...

terça-feira, 17 de julho de 2012

Pronto


Por mais que certos anjos iluminem nossa vida e nosso coração, há momentos em que estamos irremediavelmente solitários. Faz parte do mundo dos adultos. Por mais que as pessoas se acolham, se amem, há algo em nós de inalcançável. A mesma essência que nos faz únicos nos condena a isso.
Hoje eu saí do hospital e chorei, chorei, chorei... E de repente parecia que não haveriam lágrimas suficientes nunca mais. Chorei todas as mortes recentes da minha vida. Chorei os enterros que andei fazendo muito depois do que deveria. Chorei minha procrastinação, chorei minha piedade por ela e meu desespero, chorei o meu amor... Chorei tudo. Desejei desaparecer e deixei vir pra fora. As pessoas me olhavam na rua e provavelmente não entendiam nada. É a vida. É a vida, que é linda, mas tem momentos de dor. E talvez essa seja a diferença fundamental: eu escolher ser uma pessoa feliz com alguns momentos inevitáveis de dor, e não o contrário.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

E se...

E se um belo dia você olhasse nos olhos de um homem e enxergasse a beleza da infinitude?
E se não tivesse a menor importância a duração da coisa toda?
E se valesse a pena, ainda que fosse por um único instante, porque você levaria consigo esse instante por toda uma eternidade?

domingo, 15 de julho de 2012

O mito da caverna

Sobrevivo. Acostumada que começava a ficar com a escuridão, e de repente completamente entregue a uma imensidão de luz.
Eu não tinha ido buscar ou procurar nada. Só estava tentando sobreviver. Mas fiquei tão contente com a luz! Mesmo que durasse quase nada, ajudaria a passar o tempo da noite escura. Mas a luz passou, e então a escuridão ficou ainda mais escura, e o frio, o frio a gelar os ossos. Nunca antes eu senti tanto frio. Acho que é disso que as pessoas tem medo quando se acomodam e não se arriscam. Desse lugar, desse momento, de estar em total queda livre, sem nenhum tipo de proteção pra amenizar o baque de voltar ao chão. Seria mais seguro nunca ter saído? Sem dúvida, mas daí não seria eu.
Eu sabia que não era a hora. Eu sabia. Mas de repente o brilho da luz era tanto que eu achei que sim, que poderia ter tanta beleza naquela luz que valia a pena fazer a hora acontecer só para ser presenteada com aquilo. Eu teria feito acontecer, de todas as formas, fazendo todo o necessário para que todos os limites fossem superados. E eles seriam, um a um. E de repente...
E então, o vislumbre que tive de qualquer coisa que fosse bonita e boa no meio do furacão simplesmente deixou-se ir. Meu Deus, como doeu! E a dor me causou um cansaço imenso, um cansaço desesperado. Tem que deixar doer. Deixar doer até esgotar-se. Ainda que eu nem faça ideia do motivo pelo qual dói tanto.
A escuridão de antes, a mesma que tantas vezes era chamada de realidade, agora é insuportável. Porque a passagem de luz explicitou de maneira inegável a ausência de si mesma quando foi a hora.
Eu sei, eu sei que essa dor é necessária. Eu confio o suficiente na vida pra saber que aconteceu exatamente o que devia. Está tudo certo.
Desconstruir. Nada ficará de pé quando tudo isso terminar. E era preciso que o nada fosse real.
Eu tinha aceitado o que fosse. Desde cedo.
Por enquanto eu sei que tá frio demais pra que eu possa agradecer. Mas chegará o dia.
E até lá, estarei sobrevivendo, desconstruindo, reinventando.