Sobrevivo. Acostumada que começava a ficar com a escuridão, e de repente completamente entregue a uma imensidão de luz.
Eu não tinha ido buscar ou procurar nada. Só estava tentando sobreviver. Mas fiquei tão contente com a luz! Mesmo que durasse quase nada, ajudaria a passar o tempo da noite escura. Mas a luz passou, e então a escuridão ficou ainda mais escura, e o frio, o frio a gelar os ossos. Nunca antes eu senti tanto frio. Acho que é disso que as pessoas tem medo quando se acomodam e não se arriscam. Desse lugar, desse momento, de estar em total queda livre, sem nenhum tipo de proteção pra amenizar o baque de voltar ao chão. Seria mais seguro nunca ter saído? Sem dúvida, mas daí não seria eu.
Eu sabia que não era a hora. Eu sabia. Mas de repente o brilho da luz era tanto que eu achei que sim, que poderia ter tanta beleza naquela luz que valia a pena fazer a hora acontecer só para ser presenteada com aquilo. Eu teria feito acontecer, de todas as formas, fazendo todo o necessário para que todos os limites fossem superados. E eles seriam, um a um. E de repente...
E então, o vislumbre que tive de qualquer coisa que fosse bonita e boa no meio do furacão simplesmente deixou-se ir. Meu Deus, como doeu! E a dor me causou um cansaço imenso, um cansaço desesperado. Tem que deixar doer. Deixar doer até esgotar-se. Ainda que eu nem faça ideia do motivo pelo qual dói tanto.
A escuridão de antes, a mesma que tantas vezes era chamada de realidade, agora é insuportável. Porque a passagem de luz explicitou de maneira inegável a ausência de si mesma quando foi a hora.
Eu sei, eu sei que essa dor é necessária. Eu confio o suficiente na vida pra saber que aconteceu exatamente o que devia. Está tudo certo.
Desconstruir. Nada ficará de pé quando tudo isso terminar. E era preciso que o nada fosse real.
Eu tinha aceitado o que fosse. Desde cedo.
Por enquanto eu sei que tá frio demais pra que eu possa agradecer. Mas chegará o dia.
E até lá, estarei sobrevivendo, desconstruindo, reinventando.
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