É. Tá doendo. Essa coisa estúpida
e violenta que é ter que lidar com a proximidade da morte. Não, não com a morte
em si. Mas com esse “estar morrendo” que parece prolongar-se pela eternidade
afora, salpicando tudo de sofrimento. Quanto de sofrimento ainda é necessário?
Eu tenho aceitado tudo até onde
consigo. Tenho procurado manter minha cabeça e meu coração concentrados na luz,
na alegria, na vida, no amor. Mas há momentos, especialmente nos últimos dias,
em que estou mergulhada num cansaço infinito, em que só queria poder parar
tudo, dormir uma semana seguida, mergulhada no mais profundo silêncio. Hoje,
como Perséfone, retorno mais uma vez ao escuro reino de Hades, onde tudo é
silêncio. Ela sufoca, e a falta de ar é quase palpável. É possível sentir
fisicamente essa falta de ar, de tão densa. Minha mãe se agarra na cama
amedrontada, mesmo sem consciência de quase nada agora. Meu pai fragilizado,
meu irmão cada vez mais afastado dessa situação, e minha irmã enlouquecendo.
Ela precisa ir. Sou a única que permanece
mais ou menos em pé. Sou a única que ainda consegue ficar sozinha com ela e
segurar em sua mão. O quanto é importante e forte segurar na mão! O quanto é
possível salvar uma pessoa segurando em sua mão... Dia desses senti isso com clareza e com toda
a força da minha alma...
Hoje eu vou pedir. Vou pedir a
ela que não tenha medo de ir. Vou pedir ao Universo que a ajude a sentir-se
segura pra ir. Vou pedir a qualquer presença amiga que esteja por perto que
possa estender a mão pra ela, amorosamente, e ensiná-la a trilhar o caminho. Ela
precisa ir. Eu sei que não sou eu que decido. Mas sei também que tudo já foi
consumado. Que a vida é generosa. Que ela merece há muito tempo descansar,
recuperar-se, perdoar a si mesma, dar fim ao inferno e estar em paz...
Deus me ilumine pra que eu
consiga ajudá-la. Hoje. Esta noite.
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