segunda-feira, 30 de julho de 2012

Fim

E então, enquanto eu escrevia o post anterior, o coração da minha mãe deixava de bater. Uma hora ou pouco mais depois de eu pedir que ela fosse... Ela já não estava mais entre nós.
Daí em diante foi aquela correria. Corpo, contato com hospital, sepultamento. Familia. Avisos a todo mundo .
Hoje é o dia seguinte. Não tenho mais que organizar as noites com ela, não tenho mais que guardar o dinheiro pra pagar as plantonistas do dia, não estou mais ansiosa pensando que a qualquer momento o telefone pode tocar. Ele já tocou.
Acabou. Acabou toda a vida que eu conhecia. Por minha escolha acabou também todo o resto. Organizar tudo agora. Meu quarto, minha casa, meu pai, meu filho, meu trabalho, meu divórcio, meus horários, o teatro.
Academia a partir de hoje. Porque preciso zerar o meu corpo. Se quero continuar sendo atriz, (e já sei que isso é o que realmente me realiza), eu preciso de um corpo diferente desse. Ele tem que comportar qualquer personagem. Pra isso eu tenho que emagrecer no mínimo uns 20 quilos. Pra já. Pra que no trabalho com Shakespeare eu já possa encaixar-me em qualquer papel e não precise ser sempre a mãe de alguém...
E o meu amor, imenso amor que guardo aqui?
Pois é, esse ainda me dói. E vou ter que aprender a lidar com isso. E ok, é exatamente o que vou fazer.
Ele é meu amigo. E ponto. Vou ter que conviver com isso, com toda a gratidão pelo nível dessa amizade.
Ele tem histórias. Ninguém chega zerado ao outro. Infelizmente eu também tenho as minhas. E elas também me doem. Sete anos de casamento com um homem que me amava (e me ama até hoje), mas que nunca me tocava. Não sentia atração física por mim. Não tinha tesão. E eu me sentia frustrada, problemática, achava que a responsabilidade disso era toda minha e que deveria haver algo que todas as outras mulheres soubessem menos eu para serem sensuais, atraentes ou sabe-se lá o raio que o parta que ele estivesse procurando e não encontrava em mim.
Isso não fez nada bem pro amor que sinto por mim mesma. Machucava. Machucava todo dia.
E agora de alguma forma vejo acontecer bem parecido, doendo no mesmo lugar... Uma simples constatação de que ele é meu amigo porque não se sente atraído por mim, não tem vontade de beijo na boca, nem de sexo, nem de nenhum contato físico que remeta a alguma coisa diferente de um cuidado e carinho imensos.
Se ele sentisse tesão por mim já seria complicado, porque eu teria medo, Mas dessa forma, então... muito mais.
Não banco mais. Tô numa fase em que eu me jogo nos meus sentimentos, e não ligo de me machucar. Quero mais é viver de verdade, mesmo que isso me cause algumas feridas. Mas não exatamente no mesmo lugar que foi machucado uma vida inteira, e agora precisa cicatrizar. A gente não é só alma se comunicando. A gente é corpo, um corpo que quer e precisa ser aceito, desejado... Eu não sei lidar com isso, mas preciso aprender. Eu não sei o que fazer com meu corpo, não soube a vida inteira o que fazer com ele. Eu não me sinto em casa dentro dele, é como se ele fosse uma coisa estranha que não representa quem eu sou de fato, um peso que eu carrego comigo pra todos os lugares. Mas agora ele grita pedindo atenção, pedindo pra ser acolhido de fato, pedindo pra se integrar em quem eu sou.
Tá na hora de sintonizar no mundo fisico. Entrar em contato com meu corpo, experimentá-lo de fato, acolhê-lo, e (por quê não?) sentir esse corpo desejado. Por mim e pelo outro. Eu preciso muito disso. Eu preciso muito saber que corporalmente não sou uma mulher deficiente, que repele os homens, que não conseguem enxergar nesse corpo uma mulher. Eu sei que é absurdo, mas é assim que vejo, que sempre vi. E sei que isso é uma responsabilidade inteiramente minha e só eu posso resolver.
Então não dá. Amor sem contato físico é amizade. Eu aceito a amizade. Mas ao mesmo tempo então tenho que calar o meu amor. Porque senão ele vai doer. Vai doer a falta da proximidade, e eu vou ficar repetindo pra mim mesma que é claro que as coisas são assim porque tudo o que tenho de atrativo não está no corpo, e é claro que ele não olha pra mim porque ninguém olha, porque meu corpo não existe pra ser visto dessa forma e nunca foi. E eu vou continuar me machucando assim se continuar com isso. Repetindo a mim mesma o que a minha mãe dizia sobre a minha inadequação, sobre eu ser desajeitada e feia. Não. Minha mãe morreu e eu escolho que a partir de agora as coisas são diferentes.
Sim, ele me ama. Ainda que não diga, eu sei, porque ninguém é tão atencioso e fantástico com o outro se não for por amor. Mas atração física é outra coisa. Acontece, não depende da vontade de ninguém. Ele não tem como forçar isso, e me resta entender. E me preservar. Eu sou a única responsável pelos meus sentimentos e minhas escolhas... Eu não banco fazer de novo isso comigo, de ficar á espera de um toque qualquer a me lembrar que sou mulher. Eu tenho que resolver isso sozinha, de forma independente, pra que pare de doer.
E então, nesse momento, eu faço a única coisa que posso: ficar em silêncio. Sem novas mensagens, sem telefonemas, sem procurar mais nada. Aproveitando a parte boa e sendo grata por ela. E mais nada.
O resto pertence a mim.




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