Mudança de lugar, Estou tentando agilizar isso para o final
da semana que vem. O inevitável não pode ser adiado por muito tempo. Eu já
devia ter ido desde bem antes.
O fato é que houve uma mudança de planos. Eu ia me mudar pra
um pequeno apartamento próximo, eu e João. Mas nesse momento meu pai precisa
que alguém cuide dele. Tá esquecendo de comer, bem ele que já é tão magrinho. E
se alguém pode alegrá-lo, bem agorinha, somos eu e João.
Na minha família tudo sempre foi “meio ao contrário”. Minha
mãe sempre foi a figura de poder, autoridade, repressão, e meu pai sempre foi a
suavidade e delicadeza em pessoa. Sempre foi ele quem me contou história e me
colocou pra dormir. Ele criava músicas pra mim. Quando eu era criança ele fez
com as próprias mãos uma cadeirinha de balanço pra mim. E aprendeu a fazer um
caleidoscópio, só pra me dar de presente. Depois, quando fiz nove anos, ele me
deu um porquinho-da-india, e ele mesmo fez a casinha de madeira do bichinho
também. E o baú onde eu guardava minhas cartinhas secretas na adolescência? Fazer
com maestria lindos objetos de madeira era uma das formas que ele tinha de
expressar seu amor. Mas tudo nele era amor, sempre. A ele eu devo minha referência
de amor incondicional. Com a minha mãe tudo era violento, e ele era sempre todo
acolhida...
Agora ele está frágil, tão frágil quanto a minha mãe. E
precisa de alguém que cuide dele. E eu, que de qualquer forma já ia pro meu
lugar, vou voltar por um tempinho. Ajudar ele a lidar com a casa sem a minha
mãe preenchendo cada cômodo. Ajudar a lidar com os vazios, ajudar a lidar
consigo mesmo, ajudá-lo a construir uma vida sem a minha mãe, pelo menos por
enquanto... Deixar João encher aquela casa de risadas, e de chamados ao vovô, e
de brinquedinhos, e de cores novas. Meu pai adora o neto.
É isso. Hora de mudar. Hora de voltar um pouquinho e começar
de novo, junto do meu pai, cuidando dele por um tempinho, como ele sempre fez
tão carinhosamente comigo...
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