Sim, eu vivo indo embora. Desde que me lembro. Foram muitas
partidas. E em cada lugar onde eu passava me arrancava um pedaço sim. Eu nunca
cheguei pra ir embora. Sempre era pra ficar. Mas nunca encontrei minha casa.
Sempre tive essa sensação incômoda, de não pertencer a lugar nenhum. Eu não sou
de lugar nenhum, e nenhum lugar me pertence. E como isso sempre doeu e ainda
dói! Doía mais quando eu tinha a sensação de que era tão singular. Eu olhava em
volta e parecia que todos os outros estavam tão confortáveis com o lugar onde
estavam... Eles não pareciam estar procurando coisa nenhuma. Eles pareciam
sequer enxergar onde estavam. E eu com aquela sensação, de que alguma coisa em
algum lugar estava me chamando, mas eu não sabia o quê, nem onde... Eu sempre
fui muito subjetiva, sempre escutei o que não se dizia, vi o que não se
mostrava... E como eu explicar essa coisa de chegar nu lugar, ou olhar uma
pessoa, e intuitivamente saber e entender o que está acontecendo?
Ok, eu sei que sempre tive uma vontade terrível de ser
adequada. De me adaptar, de agradar a quem me visse, de ser boazinha. E aí essa
percepção me ferrava, porque eu sabia o que tinha que fazer pra ser adequada em
cada lugar. Até me dar conta que minhas partes adequadas não combinavam entre
si e que eu não passava de uma colcha de retalhos muito da confusa. E nem fez
tanta diferença. Porque nem importa o que a gente faça, nem o melhor que tente
fazer, as pessoas terão o próprio jeito de ver. E elas sempre vão enxergar o
que querem, independente das evidências... E, de qualquer modo, o alívio é que
as outras pessoas estão tão ocupadas consigo mesmas que dificilmente sabem ver
e ouvir o que seja diferente delas, então nem importa tanto assim.
Bem, ok, nem dá pra generalizar. Mas eu sei que isso que
chamamos de “realidade” e as coisas que enxergamos como óbvias”, quase nunca dizem respeito às mesmas referências.
Quando eu digo coisas como desejo, sexo, liberdade, amor, no que estou
pensando? E o que se invoca no outro diante das mesmas palavras? Com alguns, a
diferença pode ser tão gritante que é quase como se não fôssemos nativos do
mesmo idioma...
Há dias em que me sinto distante, tão distante de qualquer
outra pessoa ou lugar, ou realidade, que é quase como se eu estivesse olhando
tudo de fora. Uma desagradável sensação de “ainda que eu tente me comunicar,
não vai rolar”. E a solidão dos espaços infinitos me atordoa. Foi por medo
desses atordoamentos que boas vezes me prendi. Sabendo que não devia. Mas me
esforçando para parecer ao menos com qualquer coisa que fosse familiar, ou
segura, ou minimamente normal. Uma desagradável sensação de que se me
descobrissem eu seria mandada pra fora (pra fora de onde, do mundo?)
Eu não sei se a gente ganha enquanto pessoa tentando ser
melhor. Talvez fosse mais produtivo que a gente simplesmente aceitasse o que é,
por mais estranho que fosse, e se amasse assim mesmo, sem ficar se cobrando por
aquilo que deveria ser. Talvez fosse tão mais simples ser feliz e pronto,
imaginando que o resto é consequência...
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