Segundo a história, a fênix, ao pressentir que está prestes a morrer, se recolhe, constrói um ninho e espera. E então ocorre o incêndio. O incêndio renovador, que destrói tudo até restarem somente as cinzas. Dessas cinzas a fênix ressurge, jovem novamente, pra iniciar a vida que apenas começa...
Mas, e antes do incêndio? Como são os momentos de recolhimento que antecedem essa morte?
É o lugar onde estou. Recolhida no próprio ninho, mesmo sendo aquela que não se sente em casa em lugar nenhum.
Mas eis que espero. E o sentimento é uma agonia. Saber que se vai morrer é terrível. Haja o que houver e seja como for, vou morrer. Para todos os lados que eu olho, em tudo o que vejo, a vida aqui continuará correndo a seu próprio modo, sem mim. Quando eu voltar, será outra pessoa voltando pra outro lugar...
Uma vontade de prantear meu próprio luto. Um pavor, pavor intenso, de ficar esse tempo todo comigo mesma, sem ninguém que sinto como meu apoio, sem nada que conheço como segurança... Eu disse que não tinha casa? Talvez minha casa seja São Paulo, e por isso eu esteja tão assustada.
Tenho certeza que será transformador. Tenho medo de morrer de saudades. Tenho medo de gostar e nunca mais ter vontade de voltar, mas ter que voltar mesmo assim e passar o resto da vida sabendo que estou "tendo que". Medo, um medo insano.
Liberdade. Apesar de estar no trabalho o dia todo, uma liberdade insuportável. 15 dias apenas comigo mesma. Sim, com as pessoas do trabalho, que serão diferentes a cada dois dias. Não haverá tempo de travar amizades, no máximo simpatias... De resto, só eu.
Então é agora. É agora que a limpeza da renovação começa. É agora que me despeço de mim, da forma como me conheço... Que venha o novo. Com medo, mas um medo fértil de desejos.
E, depois que eu saltar desse abismo, se não for pedir demais, desejo que haja alguém do outro lado pra me abraçar, e me lembrar que nascer é assustador, mas que sou forte e tudo vai ficar bem. Pode ser?

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