terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Do nada.

Do nada um dia a gente encontra uma porta muito escondida atrás da estante. E a gente até tem que olhar de novo, porque da primeira vez que passou não tinha reparado muito bem, confundindo com um desenho bonito na parede ou algo assim.
Mas que daí a gente chega perto e experimenta a fechadura, só mesmo por experimentar, jurando que vai encontrá-la trancada.
Mas ela se abre. E mostra um mundo lindo do lado de dentro. E a gente olha, com medo desse mundo ser delicado como uma bolha de sabão e explodir ao toque. E quanto mais a gente olha, mais acha bonito.
E a gente acha tudo tão delicado, que tem medo de sem querer quebrar alguma coisa.
E continua espiando de fora. Com curiosidade e encantamento.
Torcendo pra algum dia, quem sabe, com amor e um pouco de sorte, ser convidado pelos moradores da casa a conhecer o lado de dentro.
A vida tem das suas surpresas.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Sobre os pequenos milagres que ficam

Hoje pensando sobre coisas que passaram. Realidades que não existem mais. Mas como foram bonitas!
Sinto-me privilegiada. Não é todo mundo que consegue construir histórias bonitas assim. Histórias onde o amor permanece sempre e sempre.
Hoje acho que não penso mais: "Ah, se tivesse ido adiante..." Porque não havia um "adiante" para ir.
Hoje penso que foi lindo. Do jeito que foi. Nem mais nem menos do que tudo o que podia.
Sim, sinto-me grata agora. De alguma forma, as histórias vividas nos últimos dois anos me fortaleceram imensamente. Me transformaram.
Talvez eu comece, muito aos poucos, a começar a me preparar pra uma história nova. Pra amar de verdade e ser correspondida. Pra uma troca cheia de generosidade, carinho...
Sei lá. A vida tem das suas surpresas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Um novo tempo.

Tudo diferente agora.
Ano que vem já mudou.
Saio do trabalho atual e já entro num outro.
Dirijo meu próprio carro.
Terei meus alunos...
Só mais um pouco, só mais um pouco...
E depois muda tudo.
Minhas escolhas.
Mais bonitas.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O grito



E então eu grito.  E digo que não. Não mais.
Preciso estar livre.
Preciso dormir. Mesmo tendo centenas de tarefas pra cumprir antes que chegue o amanhã.
Preciso poder desfrutar de novo do tempo, da paisagem, das pessoas queridas, da felicidade.
Que eu mereço.

sábado, 24 de agosto de 2013

Tenho que voltar.

Tenho que voltar. Sempre e sempre, porque não dá pra mergulhar no silêncio para sempre.
Porque mesmo que a gente não saia de casa, e não conheça ninguém, e não mude em quase nada nossa rotina, as coisas continuam se movimentando em volta, ao redor, por baixo.
A vida se movimenta. Se movimenta mesmo quando a gente não enxerga nada. Quando parecem não existir alternativas, nem caminhos pra se seguir, nem possibilidade de espécie alguma.
Um dia a gente perde a hora do avião. Um dia a gente esquece a bolsa no restaurante. Seja o que for, um dia a situação sai completamente do controle, sem que nada anormal tivesse sido feito, e pronto. Estamos do lado de fora.
De novo aquela sensação de ter mergulhado no rio gelado. E ao sair, bate o vento. E a gente sem proteção, porque não podia imaginar que ia esfriar.
Do lado de fora. Sempre e sempre, porque o lado de dentro ainda não encontrou sua casa.
Mas o vento que bate agora não é mais tão ameaçador quanto parecia ser há um ano atrás.
Essa semana tem uma data importante. E eu sei que por mais esforço que eu faça pra esquecer, eu me lembrarei...
Que ao menos eu me lembre com gratidão.
E, sim, com amor. Amor de verdade.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Estado Civil: Legalmente Divorciada

Por fim. A partir de hoje sou legalmente divorciada.
É uma sensação meio doce, meio amarga.
Meio doce por saber que finalmente tenho uma vida de verdade, sem nenhuma sombra das verdades que não me servem mais. Por saber que há um ano atrás resolvi definitivamente viver minha própria vida, essa escolha foi minha, independente de qualquer outra questão.
Meio amargo porque separações, mesmo quando necessárias, são tristes. E mesmo que essa separação em especial já tivesse bem mais de um ano, assinar os papéis e finalizar tudo legalmente é uma espécie de sepultamento.
Agora é o final dos finais.
Agora é o dia seguinte.
Agora.

sábado, 27 de abril de 2013

Eu sou.


Tenho 36 anos, e sou mãe de um lindo menininho de 04 anos.
Sou Pedagoga, e trabalho em sete lugares diferentes.
Duas vezes por semana tenho aulas de teatro, e eles ajudam muito a manter minha sanidade. No teatro experimento personagens diversos que me fazem ser com segurança aquilo que não me sinto capaz na vida real.
Moro com meu pai e meu filho, e cuido deles o máximo que posso (mesmo que ultimamente meu pai, com 72 anos de idade, venha cuidando bem mais de mim do que eu dele). Mas eu tento. Deixo meu filho o mínimo de tempo possível longe de mim, e tomo muito cuidado com tudo o que digo ou faço pra ele. Não ligo se ele não for obediente, mas desejo muito que ele consiga ser feliz. O que implica em algumas situações não se ter imediatamente o que se quer. Tenho limitações e procuro ter paciência com elas. Mas eu acolho suas forças e seus momentos frágeis com a mesma ternura, torcendo pra que isso faça diferença.
Até o ano passado eu era casada. Me separei. E a pergunta não é por que me separei. A pergunta é porque me casei. A única resposta que encontro é que eu queria construir uma família e ele estava disponível pra isso. Porque de resto, não, eu não era apaixonada. E eu pensava que amava, mas hoje não sei se era amor aquele sentimento de que eu sempre precisava conquistar a afeição dele dando tudo o que ele queria em todos os sentidos, e mesmo assim, eu me sentia sempre tão sozinha.
Ano passado minha mãe morreu, depois de um período de sofrimento pra todo mundo. Morreu de câncer. Morreu como viveu: Botando defeito em tudo o que eu fazia. Gritando pra mim que queria a minha irmã cada vez que eu entrava pela porta do quarto. Ela conseguia gritar comigo mesmo quando já não era capaz de emitir nenhum som.
Olhando pra trás, poucas vezes eu tive colo na vida. Minhas fragilidades sempre foram recebidas com pancada pra largar de frescura. E tive que crescer, e crescer, e crescer. Pra não precisar mais de nenhum colo. Isso nunca funcionou, mas me permitia sobreviver.  
Estou com quase 100 quilos. E cada vez que tento reduzir, entro em pânico. Porque a obesidade mórbida me protege das pessoas. Me faz sentir mais segura.  Ninguém me considera como ameaça pra roubar o namorado alheio, por exemplo.  Aliás, pouca gente me considera uma mulher, boa parte dos que me conhecem me consideram um ursinho panda...
Sou tímida porque o olhar do outro me incomoda tremendamente. Vivo o grande paradoxo de querer desesperadamente ser vista e amada, e não suportar o olhar do outro. Por isso o teatro é tão importante. Me mostra e me esconde ao mesmo tempo.  Emagrecer é fácil, mas quando eu elimino três quilos e alguém diz que já dá pra perceber, o terror me domina, e junto com ele o impulso inevitável e irresistível de comer chocolate sem parar pra me cobrir.
Não importa o que eu faça, eu sempre sinto que estou fazendo tudo errado, ou que qualquer esforço não é suficiente.  E me sinto o tempo todo equilibrando todos os meus compromissos como quem vai enchendo e soltando bexigas, e elas precisam ser mantidas no ar, todas ao mesmo tempo. São os prazos dos meus trabalhos. É o teatro. É a família. São as contas. São as outras pessoas que precisam de atenção. Tem minha casa pra colocar em ordem. Alguém ou alguma coisa sempre fica deficiente. Um dia estouro um prazo importante, mas daí no próximo tento terminar bem antes e com mais qualidade pra compensar. Daí pra fazer isso eu falto no teatro, e daí na semana seguinte tento participar com toda a minha alma. Mas daí meu filho acaba ficando quase a semana inteira na casa do pai. E daí eu pego ele e tento passar mais tempo com ele, e acabo estorando prazo de trabalho de novo. Simplesmente porque não há nada que nesse momento eu possa deixar para depois.  Tudo que existe em mim é tão necessário agora para que eu possa me construir e me entender...
E, como se não fosse o bastante... Acabo de entrar num grupo de estudo de psicanálise.