Enfim. Eu soube quando chegou o momento da desconstrução. E camada a camada foi caindo de mim. E quanto mais de coisa dolorida que tinha embaixo e eu não sabia... Eu tenho motivo pra chorar pelo resto da vida. Mas sei que tenho motivo pra rir e me alegrar também pelo resto da vida. E talvez... Talvez todo mundo seja assim.
Quanta coisa tive que destruir recentemente... Não sobrou nenhum lugar seguro onde eu pudesse me proteger. E isso era extremamente necessário. E eu fui de perda em perda, de golpe em golpe, até achar que não daria conta de mais nenhum. Até doer de uma forma que eu jurei que não podia suportar mais nenhum minuto. Depois de perder minha mãe, perder também a inocência de lembranças tão antigas, e perceber que isso faz diferença.
Mas agora é hora de reorganizar.
E então tem uma mulher comigo. Uma mulher que de alguma forma representa tudo o que eu gostaria de ser. E ta me ensinando o que ela sabe.
E eu já aprendi umas coisas bem malucas. Como por exemplo, o mínimo que preciso fazer é ficar amiga do meu próprio corpo e entender como ele funciona. E saber mais sobre meus ciclos emocionais e tudo o mais."Porque nós mulheres temos muitos momentos diferentes ao longo de um mês" ela diz. E eu tenho orgulho de ser elencada no mesmo pronome "nós". O que me faz pensar que estou indo bem.
Agora eu caminho todos os dias. Não é pra emagrecer. Nem pra zerar meus personagens. Mas porque preciso. Pra equilibrar as demandas da minha cabeça, agito meus pés e minhas pernas. E por dois dias tem funcionado, estou mais disposta e menos aflita.
A mente, ela disse, é só um dos sentidos humanos. Uma das formas possíveis de se relacionar com o mundo. Mas existem muitas outras. E a mente é como uma criança: Ela precisa de cuidado, amor, alimento e LIMITES. Precisa entender que não é sempre o centro.
E ultimamente ela tem estado muito brava comigo, pois há uns dois meses que todas as viradas e revoluções da minha vida foram muito intuitivas, quase nada passou pela aprovação dela. Sim, se ela soubesse que eu me apaixonaria, daria uma guinada na forma como vinha vivendo, faria declarações explícitas do meu amor mesmo no escuro, e depois mesmo sabendo que isso não ia mudar nada... Se ela soubesse disso antes que eu fizesse, ela com certeza me gritaria: "Pare com isso, você está louca????" O fato é que quando ela me viu eu já tinha ido, já tinha feito, e ela se sentiu traída. E quando eu caí no vácuo ela me disse irritada: "Tá vendo o que vc fez? Se machucou. Agora fique aí quietinha, chega, me obedeça de uma vez."
E eu, bem nessa hora, frágil e destruída, obedeceria. Pra sempre, pro resto da vida, só para não ter que lidar com outros "prêmios" pela minha coragem...
Mas essa mulher entrou no caminho. E ela me disse que a mente é essa criança que precisa de limites, e eu pensei que meus tsunamis foram na verdade inspirações de outros sentidos que não conheço ainda. Mas ela disse que precisamos aprender a direcionar nossos sentidos pra uma melhor experimentação da vida. Equilibrando a importância de cada um.
E ela disse também que é bom que eu tenha um altar. Só eu posso saber o que considero sagrado pra estar nele, mas é preciso que ele exista. Que o Divino simbólico precisa estar ao meu alcance, pra ajudar minha mente a silenciar quando tiver que silenciar. A mente fica tranquila quando encontra um símbolo diante do qual ela possa se identificar.
E o corpo? Corpo físico, corpo sutil, e eles se refletem o tempo todo, e o que fazemos no corpo físico influencia o corpo sutil, e vice versa, e as energias.
Prestar atenção na respiração...
Tanta coisa nova! Tanta coisa que não conheço, mas que, sim, faz sentido e eu tenho que experimentar.
E a necessidade de me tratar com amor e respeito, fazendo comigo apenas o que eu faria com uma amiga muito querida, e dizendo apenas as verdades da forma como eu diria pra quem eu amo... Tão simples, e tão difícil.
Todo o resto pode esperar eu aprender a me amar do jeito certo. Afinal, eu esperei 35 anos pra conseguir fazer isso. E agora, depois de toda essa desconstrução, eu sinto mesmo que posso conseguir, e tudo está ficando tão diferente.
Gratidão. Mesmo diante do caos mais profundo, eu sempre fui capaz de reconhecer os professores que a vida ia colocando no meu caminho, e fui aprendendo, e continuo aprendendo o que cada um deles tem de melhor pra me ensinar. Há quem me ensine amor, tolerância, amizade, respeito, ternura... E pra alguns eu sei que posso ensinar um pouco da minha fé. Que acho que de tudo foi o que nunca me faltou.