Essa madrugada foi foda. Ela recebeu uma dose de morfina pra
dormir. Seu pulmão está soltando coágulos de sangue e bloqueando a traqueia,
enquanto ela sofre de falta de ar. Quando ela saiu da UTI, achamos que era
porque estava melhorando e logo iria pra casa.
Hoje ela chorou, e, segurando na minha mão, disse está
desanimada, cansada, que não tá
aguentando mais. E eu respondi: “calma, é provisório, pensa que é só por
agora”... Parecia que eu estava falando que ela ia melhorar. Mas eu e ela
entendemos outra coisa. Ela se acalmou. Mas eu acho que não vai voltar pra
casa. Eu acho que está morrendo, Os médicos já não tentam tirar a máquina de
respiração. Ninguém mais fala em fazer outra biópsia porque ela não aguentaria
a nova biópsia, e muito menos uma quimioterapia.
Mesmo com a máquina, a respiração não está regular. Tem
longos intervalos. Eu sei, eu sinto que alguma coisa está muito, muito errada,
e não há nada que eu possa fazer a não ser segurar na mão dela enquanto ela
vomita, sufoca cm o sangue que espirra pelo cânulo cada vez que ela tosse,, e
olha pra mim com olhar de súplica. Ela quer que tudo acabe logo e eu entendo profundamente, Eu faço
massagem nos pés, conto histórias, faço cafuné pra ela dormir.. E sem chorar.
Porque chorar seria acrescentar pra ela a preocupação de me deixar triste,
Ainda por cima.
Ela sempre me acusou de ser frágil demais. Eu nunca
precisei, ou nunca consegui ser tão durona quanto ela queria. Agora, temo nunca
mais conseguir ser de outro jeito. Não posso expressar nada, a ultima
coisa que ela precisa é gente da família
chorando em volta dela, Tenho dito pra mim mesma que é mais fácil se eu não
dramatizar a situação. Repito isso pra mim todos os dias. Mas haja força. Pra
estar em pé.
O teatro é o momento que tenho pra viver um pouco, e sem ele eu agora enlouqueceria com toda certeza. Nesse momento tem sido o Shangri-lá, o espaço onde posso estar feliz, tirar férias de tudo isso, ver as pessoas com leveza. Mas especialmente hoje até isso parece pesado, sem ele eu teria mais tempo pra cumprir com o meu trabalho, que me exige cada segundo do resto do tempo...
E então, eis que nesse dia, justamente nesse dia, eu chego
em casa derrotada de verdade. Durmo duas horas, que é o máximo possível, porque
eu ainda tenho que trabalhar e depois tentar ficar um tempinho com meu filho,
que também precisa. Todo o cansaço, vontade de ter um trabalho só, e ainda
assim que fosse menos exigente que o meu principal, mas preciso do dinheiro pra
dar conta dos desafios médicos que podem vir logo adiante, então é melhor eu
ficar onde estou, porque não tenho escolha.
Mas exatamente hoje, que é o dia de todo ao mesmo tempo
agora, eu recebo uma mensagem do Herbert que me faz finalmente chorar. Nada
mais tinha conseguido.
Mas a gratidão de receber um copo de água fresca no rosto bem no
meio do inferno tornou inevitável transbordar tudo de novo... E sentir que,
sim, a vida sempre tem uma boa surpresa escondida, e elas vão aparecendo na
hora certa que a gente mais precisa. Herbert, sem saber, e sem querer, você
simbolicamente salvou minha vida e renovou tudo... E agora estou de novo
pronta! Pra tudo o que for, o que tiver de ser.
Obrigada. Foi exatamente a coisa certa no momento perfeito.

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