E então fui. Após todo o pavor, foi solitário. Bem solitário. E estar sozinha foi admiravelmente muito bom.
Eu imaginei muitas coisas sobre essa minha viagem. Que muitas coisas pudessem acontecer, que seria o início de uma grande transformação. E de fato foi. Mas não como eu pensava.
Foi perfeito perceber que sou uma companhia agradável pra mim mesma, que gosto dos lugares onde meus pés me levam. Foi ótimo confiar na bonequinha escondida no meu bolso, que ia o tempo todo me soprando as impressões sobre as pessoas e lugares por onde passei. Ficamos amigas, eu e a intuição. Ouço e vejo coisas que eu não ouvia antes, quando fui embora.
Agora sei que ainda não, não estou apaixonada. E, se estivesse, não seria pela pessoa que julguei que pudesse ser. Ele foi apenas o meu porto seguro no momento em que todo o resto estava ameaçador demais pra se enfrentar sem uma fantasia. Ele é lindo. Mas agora tenho vontade de rir ao dar-me conta que não temos química alguma, nem desejo de intimidade, nem nenhuma das coisas que duas pessoas precisam pra ter um relacionamento desse tipo.
Aliás, pela primeira vez, nessa viagem, eu me questionei a esse respeito... Será que quero e preciso de um relacionamento? Amo meus amigos, mas pra além deles, eu preciso mesmo dessa coisa de atenção exclusiva e sexo?
Sexo é um problema pra mim porque eu sempre fugi dele. Mas, por conta disso, eu sempre me julguei tão inadequada e anormal... Como se fosse uma coisa tão importante pras outras pessoas, e como podia pra mim ser qualquer coisa tão dispensável? Sempre me pareceu um sinal de que eu precisava aprender alguma coisa, ou que havia algum defeito em mim, ou que o fato de ter todos os quilos que eu tenho fizessem com que ninguém nunca quisesse se aproximar sexualmente de mim. Daí eu dizia pra mim mesma que só fingia que não me importava pra não ficar o tempo todo machucada. Isso tudo cansa, é pesado...
E eis que, bem longe, muito timidamente, pensei: E se não for nada disso? E se eu só for assim e pronto, e ainda que amanhã tudo seja diferente, pode não significar que tenha sido um erro?
E se tudo isso for apenas normal, e o fato de não querer ser tocada de forma diferente por ninguém for simplesmente um direito meu? Posso estar me privando de experiências fantásticas, mas ainda assim é um direito meu...
Sim, pode ser uma enorme zona de conforto da qual eu não quero sair. Pode ser que eu não queira me desafiar com nenhum envolvimento agora, porque estou sem repertório emocional nesse momento. Mas, em alguns momentos, a gente tem que se olhar e simplesmente aceitar o que acontece. Sem criar expectativas, sem achar que tá tudo errado e tem que ser diferente. Tem horas que a gente só tem que parar e se permitir mudar quando for o tempo.
Um amigo que eu amo muito me disse: Não é verdade que você não gosta de ser tocada. Você gosta de ser tocada por mim. E é verdade. Eu gosto de ser tocada por ele. E apesar de provavelmente ser porque eu tenho certeza que ele jamais me tocaria com outras intenções que não fossem de carinho e amizade mesmo, me ocorreu pensar que, se fosse alguém como ele, talvez o toque não me incomodasse. Talvez eu ansiasse por ser tocada sim. Ou não. Mas de qualquer forma, não faz nenhum sentido ficar conjecturando diante de situações imaginárias.
De repente, a música que toca em meus ouvidos agora me diz apenas, o tempo todo, uma única frase: "Confia na vida". E eu confio. Como confiei sempre.
Posso ter muito o que aprender. Mas tenho uma fé e confiança poderosas. Mesmo quando eu nao quis crescer, sempre fui atirada em direção ao lado certo, ao necessário, aquilo que eu precisava em cada momento. Olhando pra tudo, a vida NUNCA falhou comigo, e sempre me deu no tempo certo o que eu precisava, e por isso merecia. Se nada agora desperta meu desejo, aquele desejo que ainda não conheço nem entendo, então a vida me trará, me colocará frente a frente com o próximo desafio de crescimento.
Enquanto isso, é dar conta do dia-a-dia, que não está fácil, da melhor forma possível.