sábado, 15 de fevereiro de 2014

A pequena vendedora de fósforos

Não é culpa de ninguém. Se for responsabilidade de alguém, é só minha.
Mas eu estou com raiva. E pela primeira vez na vida eu me permito estar com raiva. Por quê sempre quando chega na minha vez acabou o amor? O amor que estava lá apenas um pouco antes?
Quantas vezes isso já aconteceu? Quantas outras voltará a acontecer antes que eu também desista? Conheço muita gente que desistiu. Cansou. E eu também não estou mesmo mais cansada do que gostaria?
A gente passa uma vida inteira ouvindo que nossa presença não é importante o suficiente. Não é desejável o suficiente. Não é suficiente, simplesmente. A gente se sente como se fosse deficiente. Há gente que não escuta, há gente que não enxerga, há gente que não existe pra ser amada. Simples assim. E internamente a gente se repete que isso não é verdade, que devem existir outras realidades onde sejamos suficientes, e a gente se repete tudo aquilo como um mantra, todos os dias. E de alguma forma a gente até aprende a se olhar com um certo carinho, e entender que, sim, até que pode se amar. Mesmo que o aprendizado sempre tenha sido o de não ter importância, a gente se repete internamente até a exaustão que, ainda que a gente não saiba, pra alguém, em algum lugar, de alguma forma, a gente há de ter importância. Não só pra nós mesmos. Porque a gente sabe que de alguma forma tem pra oferecer de volta aquilo que deseja. A gente tem qualquer coisa bonita nas mãos pra oferecer. Mas, dia e noite, todo mundo passa apressado e ninguém espera pra ver os fósforos que a gente tem pra oferecer.  Aquela luzinha pequena que ilumina e aquece o suficiente apenas por alguns segundos, mas que com o combustível certo poderia sim causar um incêndio. Mas falta tempo aos outros para perceber. Ou para que isso tenha alguma importância.
Porque há dias de fragilidade extrema. Onde um abraço e um “eu me importo com você” fariam diferença...
Tem dias que eu tenho vontade de gritar. Tenho vontade de também conseguir dizer foda-se. Não consigo.
Mas subitamente entendo porque estou na escola. Porque pensam o mesmo sobre as crianças. Dizem que eles não tem valor. Ninguém tem tempo pra perder com eles. Eles só servirão depois que forem úteis materialmente. Só terão valor depois que apresentarem os resultados materiais. Antes disso devem fingir que não existem e incomodar os adultos o mínimo possível. E a cada  criança que eu consigo fazer surpreender, eu devolvo um pouco de esperança pra mim. Eu trabalho com eles e depois digo pros pais deles: “Olhem pra eles. Olhem como são lindos. Olhem o que sabem fazer, orgulhem-se deles. Orgulhem-se deles hoje, e não só depois que crescerem...”  Costuma funcionar. E dessa forma eu acendo mais um fósforo. E vejo as paisagens mais bonitas. Até que o fósforo se apaga e cá estou novamente. Porque pra mim não tem. E, não, ainda que fosse menos dolorido me conformar, não consigo... Quando chega na minha vez acabou. E não há nada que possa ser feito sobre isso.

Sim, eu tenho direito de sentir raiva porque as coisas são desse jeito. Sim, eu tenho o direito de desejar, só por hoje, não estar tão sozinha. Então eu desejo. Mas isso também não tem importância. No fundo eu sei que é só por hoje. E isso vai passar. Enfim.

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