domingo, 16 de fevereiro de 2014

Só sei que tem que continuar.

Eu estava prestes a entrar em cena. E meu personagem era um homem chamado Johnny (escrito assim mesmo, porque me lembro de ter lido no texto da peça). Alguns dos meus amigos estreavam a peça comigo. Meu personagem homem Johnny tinha um andar gingado e era meio bandido. E isso era a única coisa que eu me lembrava sobre ele. O resto eu tinha esquecido. E a cortina já ia abrir e eu percebi que tinha tido um branco. Não me lembrava sequer da história contada na peça. Nem do nome da peça. Nem de nenhuma das minhas falas ou de qualquer fala dos demais colegas de palco.

Entrando no palco, tinha um menininho perdido. No meio do palco. Ele não fazia parte do elenco, só estava ali. E ele olhou pra mim, deu um lindo sorriso e disse: “Você é bonita”. Eu respondi: “Obrigada”, mas pensei que aquilo estragava mais ainda meu personagem, que afinal era homem, porra.  Olhei ao redor me perguntando se nenhum colega de fora de cena poderia tirar aquela criança dali pra gente continuar o espetáculo e fui sentar numa espécie de arquibancada que havia no cenário (na primeira cena estávamos assistindo a um jogo de futebol), enquanto meus colegas iniciavam suas falas e um suor gelado corria da minha testa. Em cena, sem ter a menor ideia do que fazer ali, tentando pelo menos manter o personagem pra não atrapalhar o espetáculo... Porque ele sim, tinha que continuar.  

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