sexta-feira, 29 de junho de 2012

Ainda mais um pouquinho

Eu sei que a vida é cíclica, num sobe e desce sem fim. Mas o lado de baixo as vezes cansa muito.
Eu queria poder tirar uma semana de férias.
Férias de tudo. Queria que só por uma semana eu não tivesse que correr insanamente. Que só por uma semana ninguém me solicitasse coisa nenhuma. Porque por vezes sinto que sou Atlas, e tenho que sustentar. Em todos os sentidos e o tempo todo. E essa coisa de ter a responsabilidade de sustentar udo, e não ter escolha, faz com que eu me sinta tão prisioneira... E algo dentro de mim grita o tempo todo um "quero sair daqui" tão dolorido que me cansa. E eu respondo pra mulher dentro de mim que é preciso calma, paciência...
OK, todo dia eu penso em poder parar, mesmo que seja só um pouco. Tateio as paredes da cela em busca de qualquer buraquinho pra escapar. Estou presa dentro de um elevador, a coisa toda tá me sufocando, e, como em pesadelos, abro a boca pra gritar mas não grito. Não tenho tempo, não posso parar pra chorar... Preciso todos os dias seguir em frente, correndo, pra não ser atropelada. e eu corro, e corro, e corro... E quando eu acho que estou tão exausta que não conseguirei fazer mais nada, explode uma nova bomba.
Triste que o desejo que tem gritado em mim seja ficar em silêncio. Sem ter que falar com ninguém, sem ninguém falando comigo... Só assim, tendo tempo de engolir e processar tudo que acontece violentamente nessa vida insana onde eu me coloquei...

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Sim, eu preciso

Sim, eu não sou de precisar. Mas agora preciso.
Preciso de um sentimento arrebatador que me lembre que sou mulher, que tem sangue correndo nas minhas veias, e que, por mais absurdo que pareça, estou viva.
Preciso de um dia de Sol, daquele tipo que aquece a alma e acende o desejo de felicidade. E a crença que é possível explodir em milhões de cores numa felicidade intensa.
Preciso de música, de gargalhadas, de vento no rosto, de amplitude. Preciso pular no abismo e sair voando.
Desejo sair andando sem saber pra onde, e andar, andar, andar, até chegar numa paisagem desconhecida, onde não conhecemos a sequência das estações e qualquer coisa possa acontecer.
Preciso me livrar do equilíbrio e sanidade necessários agora, que fazem um vulcão me explodir por dentro, e a lava se espalhar para todos os lados, me deixando ao ponto de explodir.
Sim, eu quero explodir como um fogo de artifício, deixando milhões de cores na minha passagem. Eu quero não me preocupar em fazer sentido, mas desbravar a imensidão desconhecida da vida que acontece enquanto vivemos na rotina sufocante.
Eu quero ir além, quero conhecer o que tem por baixo das superfícies, quero desvendar os mistérios que a gente tem a sorte de vivenciar quando está distraído e que ficam inacessíveis quando tentamos procurar por eles. Quero amar e ser amada sem possuir nem ser possuída, porque isso nada tem a ver com amor.
Desejo que esse meu desejo crônico de partir possa um dia sentir que chegou em casa. Sentir que existe um lugar onde descansar a cabeça e simplesmente contemplar um pouco de paz.
Será que ando querendo demais?

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Assim as coisas tem sido.


Essa madrugada foi foda. Ela recebeu uma dose de morfina pra dormir. Seu pulmão está soltando coágulos de sangue e bloqueando a traqueia, enquanto ela sofre de falta de ar. Quando ela saiu da UTI, achamos que era porque estava melhorando e logo iria pra casa.
Hoje ela chorou, e, segurando na minha mão, disse está desanimada, cansada, que  não tá aguentando mais. E eu respondi: “calma, é provisório, pensa que é só por agora”... Parecia que eu estava falando que ela ia melhorar. Mas eu e ela entendemos outra coisa. Ela se acalmou. Mas eu acho que não vai voltar pra casa. Eu acho que está morrendo, Os médicos já não tentam tirar a máquina de respiração. Ninguém mais fala em fazer outra biópsia porque ela não aguentaria a nova biópsia, e muito menos uma quimioterapia.
Mesmo com a máquina, a respiração não está regular. Tem longos intervalos. Eu sei, eu sinto que alguma coisa está muito, muito errada, e não há nada que eu possa fazer a não ser segurar na mão dela enquanto ela vomita, sufoca cm o sangue que espirra pelo cânulo cada vez que ela tosse,, e olha pra mim com olhar de súplica. Ela quer que tudo acabe  logo e eu entendo profundamente, Eu faço massagem nos pés, conto histórias, faço cafuné pra ela dormir.. E sem chorar. Porque chorar seria acrescentar pra ela a preocupação de me deixar triste, Ainda por cima.
Ela sempre me acusou de ser frágil demais. Eu nunca precisei, ou nunca consegui ser tão durona quanto ela queria. Agora, temo nunca mais conseguir ser de outro jeito. Não posso expressar nada, a ultima coisa  que ela precisa é gente da família chorando em volta dela, Tenho dito pra mim mesma que é mais fácil se eu não dramatizar a situação. Repito isso pra mim todos os dias. Mas haja força. Pra estar em pé.
 O teatro é o momento que tenho pra viver um pouco, e sem ele eu agora enlouqueceria com toda certeza. Nesse momento tem sido o Shangri-lá, o espaço onde posso estar feliz, tirar férias de tudo isso, ver as pessoas com leveza. Mas especialmente hoje até isso parece pesado, sem ele eu teria mais tempo pra cumprir com o meu trabalho, que me exige cada segundo do resto do tempo...
E então, eis que nesse dia, justamente nesse dia, eu chego em casa derrotada de verdade. Durmo duas horas, que é o máximo possível, porque eu ainda tenho que trabalhar e depois tentar ficar um tempinho com meu filho, que também precisa. Todo o cansaço, vontade de ter um trabalho só, e ainda assim que fosse menos exigente que o meu principal, mas preciso do dinheiro pra dar conta dos desafios médicos que podem vir logo adiante, então é melhor eu ficar onde estou, porque não tenho escolha.
Mas exatamente hoje, que é o dia de todo ao mesmo tempo agora, eu recebo uma mensagem do Herbert que me faz finalmente chorar. Nada mais tinha conseguido.
Mas a gratidão de receber um copo de água fresca no rosto bem no meio do inferno tornou inevitável transbordar tudo de novo... E sentir que, sim, a vida sempre tem uma boa surpresa escondida, e elas vão aparecendo na hora certa que a gente mais precisa.  Herbert, sem saber, e sem querer, você simbolicamente salvou minha vida e renovou tudo... E agora estou de novo pronta! Pra tudo o que for, o que tiver de ser.
Obrigada. Foi exatamente a coisa certa no momento perfeito.

sábado, 2 de junho de 2012

Regressando

E então fui. Após todo o pavor, foi solitário. Bem solitário. E estar sozinha foi admiravelmente muito bom.
Eu imaginei muitas coisas sobre essa minha viagem. Que muitas coisas pudessem acontecer, que seria o início de uma grande transformação. E de fato foi. Mas não como eu pensava.
Foi perfeito perceber que sou uma companhia agradável pra mim mesma, que gosto dos lugares onde meus pés me levam. Foi ótimo confiar na bonequinha escondida no meu bolso, que ia o tempo todo me soprando as impressões sobre as pessoas e lugares por onde passei. Ficamos amigas, eu e a intuição. Ouço e vejo coisas que eu não ouvia antes, quando fui embora.
Agora sei que ainda não, não estou apaixonada. E, se estivesse, não seria pela pessoa que julguei que pudesse ser. Ele foi apenas o meu porto seguro no momento em que todo o resto estava ameaçador demais pra se enfrentar sem uma fantasia. Ele é lindo. Mas agora tenho vontade de rir ao dar-me conta que não temos química alguma, nem desejo de intimidade, nem nenhuma das coisas que duas pessoas precisam pra ter um relacionamento desse tipo.
Aliás, pela primeira vez, nessa viagem, eu me questionei a esse respeito... Será que quero e preciso de um relacionamento? Amo meus amigos, mas pra além deles, eu preciso mesmo dessa coisa de atenção exclusiva e sexo?
Sexo é um problema pra mim porque eu sempre fugi dele. Mas, por conta disso, eu sempre me julguei tão inadequada e anormal... Como se fosse uma coisa tão importante pras outras pessoas, e como podia pra mim ser qualquer coisa tão dispensável? Sempre me pareceu um sinal de que eu precisava aprender alguma coisa, ou que havia algum defeito em mim, ou que o fato de ter todos os quilos que eu tenho fizessem com que ninguém nunca quisesse se aproximar sexualmente de mim. Daí eu dizia pra mim mesma que só fingia que não me importava pra não ficar o tempo todo machucada. Isso tudo cansa, é pesado...
E eis que, bem longe, muito timidamente, pensei: E se não for nada disso? E se eu só for assim e pronto, e ainda que amanhã tudo seja diferente, pode não significar que tenha sido um erro?
E se tudo isso for apenas normal, e o fato de não querer ser tocada de forma diferente por ninguém for simplesmente um direito meu? Posso estar me privando de experiências fantásticas, mas ainda assim é um direito meu...
Sim, pode ser uma enorme zona de conforto da qual eu não quero sair. Pode ser que eu não queira me desafiar com nenhum envolvimento agora, porque estou sem repertório emocional nesse momento. Mas, em alguns momentos, a gente tem que se olhar e simplesmente aceitar o que acontece. Sem criar expectativas, sem achar que tá tudo errado e tem que ser diferente. Tem horas que a gente só tem que parar e se permitir mudar quando for o tempo.
Um amigo que eu amo muito me disse: Não é verdade que você não gosta de ser tocada. Você gosta de ser tocada por mim. E é verdade. Eu gosto de ser tocada por ele. E apesar de provavelmente ser porque eu tenho certeza que ele jamais me tocaria com outras intenções que não fossem de carinho e amizade mesmo, me ocorreu pensar que, se fosse alguém como ele, talvez o toque não me incomodasse. Talvez eu ansiasse por ser tocada sim. Ou não. Mas de qualquer forma, não faz nenhum sentido ficar conjecturando diante de situações imaginárias.
De repente, a música que toca em meus ouvidos agora me diz apenas, o tempo todo, uma única frase: "Confia na vida". E eu confio. Como confiei sempre.
Posso ter muito o que aprender. Mas tenho uma fé e confiança poderosas. Mesmo quando eu nao quis crescer, sempre fui atirada em direção ao lado certo, ao necessário, aquilo que eu precisava em cada momento. Olhando pra tudo, a vida NUNCA falhou comigo, e sempre me deu no tempo certo o que eu precisava, e por isso merecia. Se nada agora desperta meu desejo, aquele desejo que ainda não conheço nem entendo, então a vida me trará, me colocará frente a frente com o próximo desafio de crescimento.
Enquanto isso, é dar conta do dia-a-dia, que não está fácil, da melhor forma possível.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Agonia da Fênix

Segundo a história, a fênix, ao pressentir que está prestes a morrer, se recolhe, constrói um ninho e espera. E então ocorre o incêndio. O incêndio renovador, que destrói tudo até restarem somente as cinzas. Dessas cinzas a fênix ressurge, jovem novamente, pra iniciar a vida que apenas começa...
Mas, e antes do incêndio? Como são os momentos de recolhimento que antecedem essa morte?
É o lugar onde estou. Recolhida no próprio ninho, mesmo sendo aquela que não se sente em casa em lugar nenhum.
Mas eis que espero. E o sentimento é uma agonia. Saber que se vai morrer é terrível. Haja o que houver e seja como for, vou morrer. Para todos os lados que eu olho, em tudo o que vejo, a vida aqui continuará correndo a seu próprio modo, sem mim. Quando eu voltar, será outra pessoa voltando pra outro lugar...
Uma vontade de prantear meu próprio luto. Um pavor, pavor intenso, de ficar esse tempo todo comigo mesma, sem ninguém que sinto como meu apoio, sem nada que conheço como segurança... Eu disse que não tinha casa? Talvez minha casa seja São Paulo, e por isso eu esteja tão assustada.
Tenho certeza que será transformador. Tenho medo de morrer de saudades. Tenho medo de gostar e nunca mais ter vontade de voltar, mas ter que voltar mesmo assim e passar o resto da vida sabendo que estou "tendo que".  Medo, um medo insano.
Liberdade. Apesar de estar no trabalho o dia todo, uma liberdade insuportável. 15 dias apenas comigo mesma. Sim, com as pessoas do trabalho, que serão diferentes a cada dois dias. Não haverá tempo de travar amizades, no máximo simpatias... De resto, só eu.
Então é agora. É agora que a limpeza da renovação começa. É agora que me despeço de mim, da forma como me conheço... Que venha o novo. Com medo, mas um medo fértil de desejos.
E, depois que eu saltar desse abismo, se não for pedir demais, desejo que haja alguém do outro lado pra me abraçar, e me lembrar que nascer é assustador, mas que sou forte e tudo vai ficar bem. Pode ser?


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Me diz como é que você pode viver indo embora sem se despedaçar?


Sim, eu vivo indo embora. Desde que me lembro. Foram muitas partidas. E em cada lugar onde eu passava me arrancava um pedaço sim. Eu nunca cheguei pra ir embora. Sempre era pra ficar. Mas nunca encontrei minha casa. Sempre tive essa sensação incômoda, de não pertencer a lugar nenhum. Eu não sou de lugar nenhum, e nenhum lugar me pertence. E como isso sempre doeu e ainda dói! Doía mais quando eu tinha a sensação de que era tão singular. Eu olhava em volta e parecia que todos os outros estavam tão confortáveis com o lugar onde estavam... Eles não pareciam estar procurando coisa nenhuma. Eles pareciam sequer enxergar onde estavam. E eu com aquela sensação, de que alguma coisa em algum lugar estava me chamando, mas eu não sabia o quê, nem onde... Eu sempre fui muito subjetiva, sempre escutei o que não se dizia, vi o que não se mostrava... E como eu explicar essa coisa de chegar nu lugar, ou olhar uma pessoa, e intuitivamente saber e entender o que está acontecendo?
Ok, eu sei que sempre tive uma vontade terrível de ser adequada. De me adaptar, de agradar a quem me visse, de ser boazinha. E aí essa percepção me ferrava, porque eu sabia o que tinha que fazer pra ser adequada em cada lugar. Até me dar conta que minhas partes adequadas não combinavam entre si e que eu não passava de uma colcha de retalhos muito da confusa. E nem fez tanta diferença. Porque nem importa o que a gente faça, nem o melhor que tente fazer, as pessoas terão o próprio jeito de ver. E elas sempre vão enxergar o que querem, independente das evidências... E, de qualquer modo, o alívio é que as outras pessoas estão tão ocupadas consigo mesmas que dificilmente sabem ver e ouvir o que seja diferente delas, então nem importa tanto assim.
Bem, ok, nem dá pra generalizar. Mas eu sei que isso que chamamos de “realidade” e as coisas que enxergamos como                 óbvias”, quase nunca dizem respeito às mesmas referências. Quando eu digo coisas como desejo, sexo, liberdade, amor, no que estou pensando? E o que se invoca no outro diante das mesmas palavras? Com alguns, a diferença pode ser tão gritante que é quase como se não fôssemos nativos do mesmo idioma...
Há dias em que me sinto distante, tão distante de qualquer outra pessoa ou lugar, ou realidade, que é quase como se eu estivesse olhando tudo de fora. Uma desagradável sensação de “ainda que eu tente me comunicar, não vai rolar”. E a solidão dos espaços infinitos me atordoa. Foi por medo desses atordoamentos que boas vezes me prendi. Sabendo que não devia. Mas me esforçando para parecer ao menos com qualquer coisa que fosse familiar, ou segura, ou minimamente normal. Uma desagradável sensação de que se me descobrissem eu seria mandada pra fora (pra fora de onde, do mundo?)
Eu não sei se a gente ganha enquanto pessoa tentando ser melhor. Talvez fosse mais produtivo que a gente simplesmente aceitasse o que é, por mais estranho que fosse, e se amasse assim mesmo, sem ficar se cobrando por aquilo que deveria ser. Talvez fosse tão mais simples ser feliz e pronto, imaginando que o resto é consequência...
Como foi mesmo que vim parar nesse assunto?

terça-feira, 1 de maio de 2012

Saindo do centro

Ontem minha mãe me enterneceu. O esforço que fazia para conversar e interagir, estar no mundo, fazer com que percebêssemos que ela estava conseguindo pensar com clareza...
Muito guerreira. Agora o caminho será longo, vai demandar paciência de reaprender até mesmo a respirar. Mas eu acredito que ela dá conta, mesmo debilitada como está. Sempre deu. E agora sim eu posso apoiar e sustentar se ela achar difícil demais.
Sim, descoberta revolucionária: eu não sou o centro do Universo.
Depois da catarse de escrever sem parar tudo o que deu na telha, vai me dando vontade de me livrar de tanto peso, sair do centro, olhar em volta...
Sou só uma parte... Uma parte que pode muito bem estar em harmonia com um todo muito maior e muito mais importante... Ser uma parte de um todo é tão menos pesado do que ser sempre tão da mesma forma...
Eu quero dar espaço. Diminuir. Deixar que as coisas aconteçam. Confiar na vida. Abrir mão do controle. Apreciar a beleza e a arte. Produzir a beleza à medida que vou dando espaço pra que ela exista...

(A imagem acima tem o link para o artista.)

Eu acho que só agora começo a estar pronta pra aprender a amar.
De verdade. Não como os adultos.