terça-feira, 7 de agosto de 2012

Dá pra diminuir? Não, não dá.

No rótulo da minha vida podia estar escrito: aprecie com moderação. Mas não adiantaria. Passei muito tempo imóvel. E agora tenho uma sede intensa de tudo ao mesmo tempo. Desde a doença da minha mãe, então, eu senti que ela não tinha mais tempo de ser feliz, mas eu tinha. E podia.
E então eu amo como nunca amei ninguém. Amo com toda a minha alma.
E eu exerço minha maternidade como nunca exerci antes. Quando estou com o meu filho não existe mais ninguém.
E eu estou comprometida com o meu trabalho também, desde que consegui voltar a raciocinar.
Sim, eu sei que deveria ser mais suave. Se eu fosse mais suave, se eu pegasse mais leve, não teria assustado o homem que eu amo e que agora é definitivamente meu amigo. Eu sei.
Se eu fosse mais suave, teria saído do meu trabalho sem protesto do meu chefe, que além de não querer que eu saísse acabou me oferecendo melhores condições de trabalho...
Mas a questão é que então não seria eu. Seria uma personagem. De novo.
E eu estou repleta de personagens. No que realmente importa, eu não os quero.
O que quer que tenha que dar certo, ou errado, que seja por mim. Que seja porque estou sendo, e sendo de verdade. Assim como tem sido.
Mesmo se o furacão for intenso demais e sair assustando quem encontrar pelo caminho, esse furacão é o que eu sou.
E que, um pouquinho a cada dia, tô aprendendo a amar.
Sim, sou intensa demais. Nunca fui, mas a verdade é que agora eu sou. Quem me conhecer leva o pacote todo do meu furacão. Assim que é.

sábado, 4 de agosto de 2012

Os sacramentos

Acho que o primeiro sacramento foi o fogo em minhas mãos.
O segundo foi a Virginia. Quando ela colocou pra fora tudo o que eu gostaria de dizer. Quando eu e o Diogo Fillipo subimos no palco do Festival pra fazer aquela cena, da qual eu tentei desistir tantas vezes, mas ele não deixou. 

Virginia sentada na estação de trem, ele chega correndo.
Virginia: Sr. Wolf, que surpresa agradável.
Leonard: Talvez possa me dizer exatamente aonde pensa que vai.
Virgínia: O que eu fiz?
Leonard: Fui te procurar. Não te achei.
Virginia: Você estava no jardim. Não quis incomodar.
Leonard: Me incomoda quando você desaparece.
Virginia: Eu não desapareci! Fui caminhar.
Leonard: Caminhar? É só isso, uma caminhada? (Virgínia suspira cansada). Temos que voltar pra casa. Nelly está fazendo o jantar. Ela já teve um dia difícil. É nossa obrigação comer a comida da Nelly.
Virginia: Não existe tal obrigação. Não existe NENHUMA obrigação!
Leonard: Você tem obrigação com sua lucidez.
Virginia: Não agüento mais essa prisão! Não agüento mais essa opressão!
Leonard: (Repreendendo) Virgínia!
Virgínia: Sou cuidada por médicos em todo lugar! Sou cuidada por médicos que me informam os meus próprios interesses.
Leonard: Eles sabem dos seus interesses.
Virgínia: Não sabem! Eles não podem decidir o que me interessa.
Leonard: Virgínia, imagino que seja difícil pra uma mulher do seu...
Virgínia (interrompendo): Do quê? Do meu o quê, exatamente?
Leonard: Talento perceber que talvez não seja a melhor pessoa pra julgar sua própria condição.
Virgínia: Então quem é a melhor pessoa?
Leonard: (Gritando) Você tem um histórico! (Pausa) Você tem um histórico de reclusão. Te trouxemos pra cá pelo seu histórico de angústia, mau humor, desmaios, por ouvir vozes... Te trouxemos aqui pra te salvar do mal que faz a si mesma. (Pausa) Você tentou se matar duas vezes! Eu vivo diariamente sob essa ameaça. Eu montei a gráfica, nós montamos a gráfica não só pelo trabalho, não totalmente pelo trabalho, mas para que você tivesse um meio seguro de concentração e cura.
Virginia: Como bordado?
Leonard: (Gritando) Foi feito pra você! Foi feito para sua melhoria! Foi feito do nosso amor! (Pausa) Se não te conhecesse melhor, acharia ingratidão sua.
Virgínia: Eu sou ingrata? Está me chamando de ingrata? Minha vida foi roubada de mim. Vivo numa cidade que não desejoviver. Vivo uma vida que não desejo viver. Como isso foi acontecer? (Senta-se) Está na hora de voltar pra Londres. Sinto falta de Londres. Sinto falta da vida de Londres.
 Leonard: Essa não é você falando, Virginia. Esse é um sintoma da sua doença.
Virgínia: Sou eu.
Leonard: Não é você.
Virgínia: É a minha voz.
Leonard: Não é sua voz.
Virgínia: É minha e só minha.
Leonard: É a voz que você escuta.
Virgínia: (Gritando) Não é, é a minha. Estou morrendo, virando pedra nessa cidade.
Leonard: Se estivesse em condições de pensar, Virginia... lembraria que foi Londres que te deixou deprimida.
Virgínia: Se estivesse em condições de pensar? Se estivesse em condições de pensar?
Leonard: Te trouxemos pra cá para te trazer paz.
Virgínia:  Se estivesse em condições de pensar, eu te diria que eu luto sozinha e no escuro. No escuro profundo. E só eu sei, só eu posso entender minha própria condição. (PAUSA) Eu gostaria, para o seu próprio bem, que eu pudesse ser feliz nesse marasmo. Mas se for pra escolher entre esse lugar e a morte, eu escolho morrer.
Leonard: (Pensando) Muito bem. Londres então. Voltamos pra Londres.
Silêncio e os dois se olham.
Leonard: Está com fome? Eu estou com fome.
Virgínia: Vamos. (Levantam e vão caminhando até a saída) Não se pode encontrar  paz evitando a vida.

Sim, eu falei o texto da Virginia com toda a força da minha alma. Eu defendi a voz que gritava dentro de mim, eu segurei meu desejo de agir com autonomia, sem a permissão ou concordância de quem quer que fosse, eu olhei pra vida e disse que não tinha escolhido nada daquilo, eu me indignei comigo mesma, porque mesmo assim eu tinha me deixado chegar num lugar onde nada era o que eu tinha escolhido.
Vou amar a Virginia pra sempre. Foi minha primeira personagem "de verdade". Mergulhei nela assistindo o filme quinhentas mil vezes, deixei que ela mergulhasse em mim, e nosso diálogo foi transformador. 
Não se pode encontrar a paz evitando a vida... E que bom!
Porque um dia eu me joguei, sem rede de proteção, sem nenhuma garantia, um dia me senti segura pra simplesmente saltar e confiar que não ia morrer despedaçada lá embaixo... Não porque eu não tivesse medo, mas porque se fosse pra escolher entre esse lugar e a morte, se não ouvesse nada além daquilo para ser encontrado, então eu morreria mesmo.
E... bem, não me despedacei. Nem morri. De alguma forma eu fui acolhida com amor. Não que não tenha sido dolorido. Houve momentos em que realmente quase morri de frio. Meu corpo tava molhado depois de um banho de oceano, o vento soprava e não havia nenhuma toalha, nenhum casaco... Só a pele, frágil e sozinha. E o frio. Frio que chegava a doer.
Valeu a pena. Continua valendo. Acho que sempre vai valer. 


terça-feira, 31 de julho de 2012

E hoje, de alguma forma, um cansaço...

Enfim.
A ficha caiu.
Não tenho mais mãe. Agora EU sou a mãe. Agora sou eu quem cuido. Do meu pai do meu filho, dos meus irmãos, dessa casa, do trabalho... de tudo.
Minha mãe tem auxílio funeral, correspondente a um mês de salário dela. Mas tem que dar entrada nisso na Secretaria da Fazenda.
Meu pai vai ter pensão porque minha mãe era funcionária pública. Mas tem que ir atrás disso.
Todas as contas da minha mãe em banco precisam ser fechadas. Todos os cartões precisam ser cancelados.
Essa casa tem uma TV a cabo que é paga todo mês mas que não funciona. Tem que mandar consertar.
O chuveiro do meu quarto derruba o disjuntor se o banho passa de 05 minutos. Tem que trocar o disjuntor.
Boa parte das coisas do meu pai continuam entulhadas no meio do meu quarto, e eu preciso esperar ele fazer, porque as coisas são todas dele. Ele tem que decidir o que é pra jogar fora, o que vai manter. Com muita delicadeza, que o momento é sensível.
Preciso ir na auto-escola. E na academia. E falar com o terapeuta. E com a advogada do divórcio. Comprar roupa de frio pro João, que as dele estão todas pequenas demais. Cuidar do meu pai, fazê-lo ter a segurança de não estar sozinho.
Preciso trazer um bando de coisas que ficaram na outra casa e que ainda não caberiam aqui.
Preciso retomar boa parte das atividades do trabalho.
Preciso decorar o texto da Madalena. E relembrar as falas de Lisa. E achar o figurino delas.
Preciso decidir com meus irmãos, dentre essas coisas, quem vai fazer o quê. Pra gente dividir um pouco.
E então eu olho pra tudo isso....
E, sério, me bate um cansaço tão grande... Não sei nem por onde começar a organizar. Lutando bravamente contra a imobilidade, a paralisia, a vontade de dormir e só acordar daqui a seis meses, com tudo isso resolvido, terminado...
Repito o mantra das mães: Vai passar, vai passar, vai passar...
Mas tem dias que tudo parece tão grande e eu tão pequena...
Mas vai passar.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Fim

E então, enquanto eu escrevia o post anterior, o coração da minha mãe deixava de bater. Uma hora ou pouco mais depois de eu pedir que ela fosse... Ela já não estava mais entre nós.
Daí em diante foi aquela correria. Corpo, contato com hospital, sepultamento. Familia. Avisos a todo mundo .
Hoje é o dia seguinte. Não tenho mais que organizar as noites com ela, não tenho mais que guardar o dinheiro pra pagar as plantonistas do dia, não estou mais ansiosa pensando que a qualquer momento o telefone pode tocar. Ele já tocou.
Acabou. Acabou toda a vida que eu conhecia. Por minha escolha acabou também todo o resto. Organizar tudo agora. Meu quarto, minha casa, meu pai, meu filho, meu trabalho, meu divórcio, meus horários, o teatro.
Academia a partir de hoje. Porque preciso zerar o meu corpo. Se quero continuar sendo atriz, (e já sei que isso é o que realmente me realiza), eu preciso de um corpo diferente desse. Ele tem que comportar qualquer personagem. Pra isso eu tenho que emagrecer no mínimo uns 20 quilos. Pra já. Pra que no trabalho com Shakespeare eu já possa encaixar-me em qualquer papel e não precise ser sempre a mãe de alguém...
E o meu amor, imenso amor que guardo aqui?
Pois é, esse ainda me dói. E vou ter que aprender a lidar com isso. E ok, é exatamente o que vou fazer.
Ele é meu amigo. E ponto. Vou ter que conviver com isso, com toda a gratidão pelo nível dessa amizade.
Ele tem histórias. Ninguém chega zerado ao outro. Infelizmente eu também tenho as minhas. E elas também me doem. Sete anos de casamento com um homem que me amava (e me ama até hoje), mas que nunca me tocava. Não sentia atração física por mim. Não tinha tesão. E eu me sentia frustrada, problemática, achava que a responsabilidade disso era toda minha e que deveria haver algo que todas as outras mulheres soubessem menos eu para serem sensuais, atraentes ou sabe-se lá o raio que o parta que ele estivesse procurando e não encontrava em mim.
Isso não fez nada bem pro amor que sinto por mim mesma. Machucava. Machucava todo dia.
E agora de alguma forma vejo acontecer bem parecido, doendo no mesmo lugar... Uma simples constatação de que ele é meu amigo porque não se sente atraído por mim, não tem vontade de beijo na boca, nem de sexo, nem de nenhum contato físico que remeta a alguma coisa diferente de um cuidado e carinho imensos.
Se ele sentisse tesão por mim já seria complicado, porque eu teria medo, Mas dessa forma, então... muito mais.
Não banco mais. Tô numa fase em que eu me jogo nos meus sentimentos, e não ligo de me machucar. Quero mais é viver de verdade, mesmo que isso me cause algumas feridas. Mas não exatamente no mesmo lugar que foi machucado uma vida inteira, e agora precisa cicatrizar. A gente não é só alma se comunicando. A gente é corpo, um corpo que quer e precisa ser aceito, desejado... Eu não sei lidar com isso, mas preciso aprender. Eu não sei o que fazer com meu corpo, não soube a vida inteira o que fazer com ele. Eu não me sinto em casa dentro dele, é como se ele fosse uma coisa estranha que não representa quem eu sou de fato, um peso que eu carrego comigo pra todos os lugares. Mas agora ele grita pedindo atenção, pedindo pra ser acolhido de fato, pedindo pra se integrar em quem eu sou.
Tá na hora de sintonizar no mundo fisico. Entrar em contato com meu corpo, experimentá-lo de fato, acolhê-lo, e (por quê não?) sentir esse corpo desejado. Por mim e pelo outro. Eu preciso muito disso. Eu preciso muito saber que corporalmente não sou uma mulher deficiente, que repele os homens, que não conseguem enxergar nesse corpo uma mulher. Eu sei que é absurdo, mas é assim que vejo, que sempre vi. E sei que isso é uma responsabilidade inteiramente minha e só eu posso resolver.
Então não dá. Amor sem contato físico é amizade. Eu aceito a amizade. Mas ao mesmo tempo então tenho que calar o meu amor. Porque senão ele vai doer. Vai doer a falta da proximidade, e eu vou ficar repetindo pra mim mesma que é claro que as coisas são assim porque tudo o que tenho de atrativo não está no corpo, e é claro que ele não olha pra mim porque ninguém olha, porque meu corpo não existe pra ser visto dessa forma e nunca foi. E eu vou continuar me machucando assim se continuar com isso. Repetindo a mim mesma o que a minha mãe dizia sobre a minha inadequação, sobre eu ser desajeitada e feia. Não. Minha mãe morreu e eu escolho que a partir de agora as coisas são diferentes.
Sim, ele me ama. Ainda que não diga, eu sei, porque ninguém é tão atencioso e fantástico com o outro se não for por amor. Mas atração física é outra coisa. Acontece, não depende da vontade de ninguém. Ele não tem como forçar isso, e me resta entender. E me preservar. Eu sou a única responsável pelos meus sentimentos e minhas escolhas... Eu não banco fazer de novo isso comigo, de ficar á espera de um toque qualquer a me lembrar que sou mulher. Eu tenho que resolver isso sozinha, de forma independente, pra que pare de doer.
E então, nesse momento, eu faço a única coisa que posso: ficar em silêncio. Sem novas mensagens, sem telefonemas, sem procurar mais nada. Aproveitando a parte boa e sendo grata por ela. E mais nada.
O resto pertence a mim.




sábado, 28 de julho de 2012

Agora vai. Por favor.


É. Tá doendo. Essa coisa estúpida e violenta que é ter que lidar com a proximidade da morte. Não, não com a morte em si. Mas com esse “estar morrendo” que parece prolongar-se pela eternidade afora, salpicando tudo de sofrimento. Quanto de sofrimento ainda é necessário?
Eu tenho aceitado tudo até onde consigo. Tenho procurado manter minha cabeça e meu coração concentrados na luz, na alegria, na vida, no amor. Mas há momentos, especialmente nos últimos dias, em que estou mergulhada num cansaço infinito, em que só queria poder parar tudo, dormir uma semana seguida, mergulhada no mais profundo silêncio. Hoje, como Perséfone, retorno mais uma vez ao escuro reino de Hades, onde tudo é silêncio. Ela sufoca, e a falta de ar é quase palpável. É possível sentir fisicamente essa falta de ar, de tão densa. Minha mãe se agarra na cama amedrontada, mesmo sem consciência de quase nada agora. Meu pai fragilizado, meu irmão cada vez mais afastado dessa situação, e minha irmã enlouquecendo.
Ela precisa ir. Sou a única que permanece mais ou menos em pé. Sou a única que ainda consegue ficar sozinha com ela e segurar em sua mão. O quanto é importante e forte segurar na mão! O quanto é possível salvar uma pessoa segurando em sua mão...  Dia desses senti isso com clareza e com toda a força da minha alma...
Hoje eu vou pedir. Vou pedir a ela que não tenha medo de ir. Vou pedir ao Universo que a ajude a sentir-se segura pra ir. Vou pedir a qualquer presença amiga que esteja por perto que possa estender a mão pra ela, amorosamente, e ensiná-la a trilhar o caminho. Ela precisa ir. Eu sei que não sou eu que decido. Mas sei também que tudo já foi consumado. Que a vida é generosa. Que ela merece há muito tempo descansar, recuperar-se, perdoar a si mesma, dar fim ao inferno e estar em paz...
Deus me ilumine pra que eu consiga ajudá-la. Hoje. Esta noite. 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Seja como for...


Tudo parece menos pesado depois de duas horas de sono...
Estou aprendendo todo dia, numa velocidade vertiginosa.
Quando estou com a minha mãe, eu fico durona e sou forte. Mergulho na dor, estou plenamente ali, emaranhada no reino da escuridão infinita. Dói tudo que tem pra doer, mas eu estou ali.
Mas a manhã chega, e volto pras outras coisas da minha vida. E vem a necessidade do viver intenso, de experimentar as alegrias com a mesma intensidade. E eu amo intensamente, e fico intensamente feliz, e dou risada com os amigos, cada instante importa.
E onde está a pessoa que fugiu das emoções uma vida inteira? Que dava um jeito de se ausentar de tudo o que parecesse perigoso, por achar que não dava conta?
Agora só existe um assim seja o presente. O presente multifacetado, ora dolorido de uma dor intensa e profunda, ora tão feliz que parece que só a felicidade existe e está em tudo. E eu estou nesse exato instante, em cada um dos exatos lugares por onde passo. Pela primeira vez na vida...
Seja como for, venha o que vier, que VENHA! Que venha a verdade em todos os sentidos.
Dois aprendizados importantes:
1- O que tem que ser, tem força própria. Vai superar os obstáculos pra acontecer. O que não tem que ser, nem toda a força do universo poderá mover. Não nos pertence o controle sobre a vida e a morte, nem sobre os sentimentos alheios.
2- Quando alguém vive de verdade, todos os outros também vivem. Porque o intenso desejo da vida é acontecer.
Gratidão profunda.
http://youtu.be/WOa9mFRTDq4

domingo, 22 de julho de 2012

Vida-Morte-Vida

O ciclo vida-morte-vida vai se acelerando num velocidade vertiginosa.
Não há tempo para parar, subir à tona pra respirar, não há tempo pra nada.
A vida dela tá se esvaindo na frente dos meus olhos. E eu sinto que chegou o momento. De ajudá-la a pular essa ponte. Ela está morrendo de medo. Não é fácil deixar pra trás tudo o que conhecemos, tudo o que nos é familiar, e se enxergar diante da possibilidade do desconhecido na mais profunda solidão.
De modos diferentes, eu e ela pulando na água gelada. O frio. A desproteção. A vulnerabilidade. Sem armas. Não temos escolha, as armas ficaram todas lá, onde as deixamos quando nos despimos. É assim, de peito aberto que eu e ela enfrentamos nossa história.
Que venha! Que venha a alegria, a tristeza, o amor, a dor... Que venha o que tiver que vir. Que venham as lições, os desafios, os aconchegos... Que venha tudo. Tudo o que for presente para mim agora. Eu receberei, e serei grata, por pura confiança. Confiança de que o que tem que ser tem força. Que tudo acontece pra o melhor, mesmo quando não conseguimos ver. Agora ela dorme e sorri. Acho que está rodeada de amigos queridos. Eu sei, tenho certeza que sou eu a ajudar a fazer essa passagem. Hoje ou por esses dias, só eu poderei ajudá-la com o medo... É o pedido da vida pra mim agora...