Desde que
nos conhecemos eu sempre botei tudo a perder. Sempre. Porque eu estive escancarando
verdades o tempo inteiro. Aquelas verdades mais insanas, mais incômodas, de
forma que ele agora conhece todos os meus defeitos, meus complexos, meus
exageros... Tudo o que há pior em mim. É justo e previsível que seu ponto de
vista traga exatamente essa impressão. Não posso fazer mais nada.
E sim,
finalmente eu entendi que não passo de uma mulher humana. E pior: Eu adoro ser
uma mulher humana. Eu gosto de poder gargalhar. Eu gosto de me jogar com tudo
nas forças do vento. Eu me atiro do abismo e deixo o vento me trazer de volta,
e quando ele não sopra eu me estatelo no chão e quebro em mil pedaços. E não
desisto. Porque ainda que Eros não seja amor, é ele quem nos tira do lugar e
nos leva na direção certa pro amor nos encontrar. E se não encontrar também
foda-se, pois em algum momento eu já tinha resolvido que não queria ser santa,
queria ser humana, o mais humana que eu conseguisse ser, mesmo se isso doesse. Sem
idealizações, sem busca de perfeição. Deus me fez assim e foi assim, exatamente
assim, que ele olhou e achou bonito. E permitiu que vivesse.
E também,
tem uma hora que a gente acaba perdendo o medo depois que todos eles se
concretizam. Vou ter medo do quê? De me
machucar? De me ferir? Eu já vivi isso, eu sei exatamente o quanto pode doer.
Eu já perdi tudo o que poderia me fazer falta. E estou curiosíssima agora pra
saber o que sobra depois disso.
Nunca
convivi com tanta verdade antes. Passei uma vida inteira tentando ser adequada
e fazer sentido. E agora não há nada que esteja equilibrado, nem harmônico, nem
tranquilo. Mas isso, essa confusão de fios entrelaçados e enroscados, sou eu.
Eu que não sei mais raciocinar com clareza, eu que não acho que tenha que
raciocinar agora, porque meu instinto é quem tem gritado ultimamente, é ele
quem tá ditando as regras e eu sei que esse tempo tá acabando, mas que é
importante.
Eu não me
sinto mais superior como me sentia antes. Eu não me sinto mais evoluída que os
violentos agora. Eu não me sinto melhor que quem quer que seja. E estranhamente, eu me sinto apenas melhor do
que eu mesma, quando, ainda que não dissesse em voz alta pra
ninguém e não admitisse nem pra mim mesma, olhava pra todo mundo com disfarçada
arrogância travestida de simpatia.
Agora essa
historia tá chegando ao fim. Não porque eu queira. Eu sinto que poderíamos continuar
aprendendo um com o outro pela eternidade afora, há tantas coisas nele que eu
queria conhecer mais, que me ensinariam. E sim, mesmo em meio ao “desequilíbrio”
eu também tinha muito pra ensinar. O que foi que atrapalhou? Medo? Preconceito?
O passado? O acaso? É triste pensar que eu nunca vou saber o que foi que
realmente aconteceu. E não há nada que eu possa fazer.
Talvez
isso já não importe. E já sei que está chegando ao fim. Por mais que eu queira
ficar, não tem lugar pra mim, e isso dói, mas é a realidade e é necessário
lidar com ela da melhor forma que eu puder. E então chega. Hoje eu ainda estou
aqui, apenas porque existe algum lado teimoso que deseja ardentemente que ele me
peça pra não ir embora, pra continuar junto, pra que possamos devagar e sempre pelo
menos experimentar, ver se é possível a felicidade que eu vi...
Mas eu
provavelmente enxerguei o que não existia. Nunca estivemos juntos. Eu vi, vi
com tanta força, e achei tudo tão lindo... Mas simplesmente nada daquilo que eu
vi esteve lá algum dia. Era tudo alucinação minha. Se alguma vez tivesse estado lá, se houvesse
qualquer tipo de ressonância, eu teria respostas. Nunca houve. Eu estava
uivando pra lua na beira do abismo, e a resposta que escutei era apenas o eco. Mas
eu lamento. Lamento tanto, lamento com toda a minha alma não poder ficar. Mas eu não posso, não tem lugar pra mim. E ponho-me
no início da estrada, da estrada que eu sei que vai me levar pra longe, muito
longe... Me segure agora, se quiser. Nem precisa me prometer coisa nenhuma, só
me dizer pra ficar. Não haverá outro instante. Diga uma única palavra, e eu
fico. Sem pergunta nem cobrança.
Caso
contrário, não faça mais nada, e assim me liberta pra ir. Agora.

