Segundo a história, a fênix, ao pressentir que está prestes a morrer, se recolhe, constrói um ninho e espera. E então ocorre o incêndio. O incêndio renovador, que destrói tudo até restarem somente as cinzas. Dessas cinzas a fênix ressurge, jovem novamente, pra iniciar a vida que apenas começa...
Mas, e antes do incêndio? Como são os momentos de recolhimento que antecedem essa morte?
É o lugar onde estou. Recolhida no próprio ninho, mesmo sendo aquela que não se sente em casa em lugar nenhum.
Mas eis que espero. E o sentimento é uma agonia. Saber que se vai morrer é terrível. Haja o que houver e seja como for, vou morrer. Para todos os lados que eu olho, em tudo o que vejo, a vida aqui continuará correndo a seu próprio modo, sem mim. Quando eu voltar, será outra pessoa voltando pra outro lugar...
Uma vontade de prantear meu próprio luto. Um pavor, pavor intenso, de ficar esse tempo todo comigo mesma, sem ninguém que sinto como meu apoio, sem nada que conheço como segurança... Eu disse que não tinha casa? Talvez minha casa seja São Paulo, e por isso eu esteja tão assustada.
Tenho certeza que será transformador. Tenho medo de morrer de saudades. Tenho medo de gostar e nunca mais ter vontade de voltar, mas ter que voltar mesmo assim e passar o resto da vida sabendo que estou "tendo que". Medo, um medo insano.
Liberdade. Apesar de estar no trabalho o dia todo, uma liberdade insuportável. 15 dias apenas comigo mesma. Sim, com as pessoas do trabalho, que serão diferentes a cada dois dias. Não haverá tempo de travar amizades, no máximo simpatias... De resto, só eu.
Então é agora. É agora que a limpeza da renovação começa. É agora que me despeço de mim, da forma como me conheço... Que venha o novo. Com medo, mas um medo fértil de desejos.
E, depois que eu saltar desse abismo, se não for pedir demais, desejo que haja alguém do outro lado pra me abraçar, e me lembrar que nascer é assustador, mas que sou forte e tudo vai ficar bem. Pode ser?
quinta-feira, 10 de maio de 2012
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Me diz como é que você pode viver indo embora sem se despedaçar?
Sim, eu vivo indo embora. Desde que me lembro. Foram muitas
partidas. E em cada lugar onde eu passava me arrancava um pedaço sim. Eu nunca
cheguei pra ir embora. Sempre era pra ficar. Mas nunca encontrei minha casa.
Sempre tive essa sensação incômoda, de não pertencer a lugar nenhum. Eu não sou
de lugar nenhum, e nenhum lugar me pertence. E como isso sempre doeu e ainda
dói! Doía mais quando eu tinha a sensação de que era tão singular. Eu olhava em
volta e parecia que todos os outros estavam tão confortáveis com o lugar onde
estavam... Eles não pareciam estar procurando coisa nenhuma. Eles pareciam
sequer enxergar onde estavam. E eu com aquela sensação, de que alguma coisa em
algum lugar estava me chamando, mas eu não sabia o quê, nem onde... Eu sempre
fui muito subjetiva, sempre escutei o que não se dizia, vi o que não se
mostrava... E como eu explicar essa coisa de chegar nu lugar, ou olhar uma
pessoa, e intuitivamente saber e entender o que está acontecendo?
Ok, eu sei que sempre tive uma vontade terrível de ser
adequada. De me adaptar, de agradar a quem me visse, de ser boazinha. E aí essa
percepção me ferrava, porque eu sabia o que tinha que fazer pra ser adequada em
cada lugar. Até me dar conta que minhas partes adequadas não combinavam entre
si e que eu não passava de uma colcha de retalhos muito da confusa. E nem fez
tanta diferença. Porque nem importa o que a gente faça, nem o melhor que tente
fazer, as pessoas terão o próprio jeito de ver. E elas sempre vão enxergar o
que querem, independente das evidências... E, de qualquer modo, o alívio é que
as outras pessoas estão tão ocupadas consigo mesmas que dificilmente sabem ver
e ouvir o que seja diferente delas, então nem importa tanto assim.
Bem, ok, nem dá pra generalizar. Mas eu sei que isso que
chamamos de “realidade” e as coisas que enxergamos como óbvias”, quase nunca dizem respeito às mesmas referências.
Quando eu digo coisas como desejo, sexo, liberdade, amor, no que estou
pensando? E o que se invoca no outro diante das mesmas palavras? Com alguns, a
diferença pode ser tão gritante que é quase como se não fôssemos nativos do
mesmo idioma...
Há dias em que me sinto distante, tão distante de qualquer
outra pessoa ou lugar, ou realidade, que é quase como se eu estivesse olhando
tudo de fora. Uma desagradável sensação de “ainda que eu tente me comunicar,
não vai rolar”. E a solidão dos espaços infinitos me atordoa. Foi por medo
desses atordoamentos que boas vezes me prendi. Sabendo que não devia. Mas me
esforçando para parecer ao menos com qualquer coisa que fosse familiar, ou
segura, ou minimamente normal. Uma desagradável sensação de que se me
descobrissem eu seria mandada pra fora (pra fora de onde, do mundo?)
Eu não sei se a gente ganha enquanto pessoa tentando ser
melhor. Talvez fosse mais produtivo que a gente simplesmente aceitasse o que é,
por mais estranho que fosse, e se amasse assim mesmo, sem ficar se cobrando por
aquilo que deveria ser. Talvez fosse tão mais simples ser feliz e pronto,
imaginando que o resto é consequência...
terça-feira, 1 de maio de 2012
Saindo do centro
Ontem minha mãe me enterneceu. O esforço que fazia para conversar e interagir, estar no mundo, fazer com que percebêssemos que ela estava conseguindo pensar com clareza...
Muito guerreira. Agora o caminho será longo, vai demandar paciência de reaprender até mesmo a respirar. Mas eu acredito que ela dá conta, mesmo debilitada como está. Sempre deu. E agora sim eu posso apoiar e sustentar se ela achar difícil demais.
Sim, descoberta revolucionária: eu não sou o centro do Universo.
Depois da catarse de escrever sem parar tudo o que deu na telha, vai me dando vontade de me livrar de tanto peso, sair do centro, olhar em volta...
Sou só uma parte... Uma parte que pode muito bem estar em harmonia com um todo muito maior e muito mais importante... Ser uma parte de um todo é tão menos pesado do que ser sempre tão da mesma forma...
Eu quero dar espaço. Diminuir. Deixar que as coisas aconteçam. Confiar na vida. Abrir mão do controle. Apreciar a beleza e a arte. Produzir a beleza à medida que vou dando espaço pra que ela exista...
(A imagem acima tem o link para o artista.)
Eu acho que só agora começo a estar pronta pra aprender a amar.
De verdade. Não como os adultos.
Muito guerreira. Agora o caminho será longo, vai demandar paciência de reaprender até mesmo a respirar. Mas eu acredito que ela dá conta, mesmo debilitada como está. Sempre deu. E agora sim eu posso apoiar e sustentar se ela achar difícil demais.
Sim, descoberta revolucionária: eu não sou o centro do Universo.
Depois da catarse de escrever sem parar tudo o que deu na telha, vai me dando vontade de me livrar de tanto peso, sair do centro, olhar em volta...
Sou só uma parte... Uma parte que pode muito bem estar em harmonia com um todo muito maior e muito mais importante... Ser uma parte de um todo é tão menos pesado do que ser sempre tão da mesma forma...
Eu quero dar espaço. Diminuir. Deixar que as coisas aconteçam. Confiar na vida. Abrir mão do controle. Apreciar a beleza e a arte. Produzir a beleza à medida que vou dando espaço pra que ela exista...
(A imagem acima tem o link para o artista.)
Eu acho que só agora começo a estar pronta pra aprender a amar.
De verdade. Não como os adultos.
domingo, 29 de abril de 2012
Agora uma pausa
Hora de ir devagar.
Hora de respirar. Depois de um dia de intenso movimento interior.
Agora posso voltar a me apoiar na poesia, que sempre me sustentou.
Em algum lugar de mim, mesmo no meio da desconstrução, mora o desejo de desfrutar da beleza.
Hora de olhar pra esse cenário destruído e enxergar a leveza que existirá na próxima curva.
Hora de respirar. Depois de um dia de intenso movimento interior.
Agora posso voltar a me apoiar na poesia, que sempre me sustentou.
Em algum lugar de mim, mesmo no meio da desconstrução, mora o desejo de desfrutar da beleza.
Hora de olhar pra esse cenário destruído e enxergar a leveza que existirá na próxima curva.
Sim, tudo incoerente
Sim, tá tudo muito, muito incoerente.
Mas eu resolvi que esse não é mesmo o melhor momento para fazer sentido.
Mas eu resolvi que esse não é mesmo o melhor momento para fazer sentido.
E então, novamente o amor
Bem de uma tacada só já falei de amor. Já falei de vocação religiosa.Já falei da minha mãe e a devolvi pro lugar dela.
Resta meu amor.
O mais difícil.
Eu sempre me orgulhei, porque podia não saber muita coisa, mas amar eu sabia. Amar sem possuir ninguém e sem sentir ciúmes.
Será que eu sabia? Será que eu sei?
Se eu questionar o modo como eu amo, não me sobra nada. Então é isso. Que seja desconstruído também o amor.
O meu "eu te amo, mas não me toque porque eu tenho medo". "Eu te amo, mas não ouse querer saber pra onde estou indo ou de onde venho". Ou ainda: "Eu te amo, mas não tente me controlar ou eu imediatamente me afasto". E, por ultimo: "Eu te amo, mas não espere que eu apóie minha vida nisso, porque quando você for embora eu tenho que estar em pé e sobreviver"
Esse meu amor é algo além do que risível? Essas formas de amar com tantas limitações e sem nenhuma confiança? Então, nem amar eu sei? Que raios eu sei fazer então?
OK, saldo do dia: uma mulher de 35 anos que pra muito do básico acha que ainda tem 12, que não sabe fazer sexo, não sabe amar, não confia em quase ninguém, que edita suas verdades batendo no peito e dizendo saber amar, e dai ela mesma acredita nessas verdades, pra depois descobrir que não era nada daquilo, e que tá chutando pedra sobre pedra até que tudo se desfaça, pra poder começar outra vez, e dessa vez de verdade...
Dá medo.
Resta meu amor.
O mais difícil.
Eu sempre me orgulhei, porque podia não saber muita coisa, mas amar eu sabia. Amar sem possuir ninguém e sem sentir ciúmes.
Será que eu sabia? Será que eu sei?
Se eu questionar o modo como eu amo, não me sobra nada. Então é isso. Que seja desconstruído também o amor.
O meu "eu te amo, mas não me toque porque eu tenho medo". "Eu te amo, mas não ouse querer saber pra onde estou indo ou de onde venho". Ou ainda: "Eu te amo, mas não tente me controlar ou eu imediatamente me afasto". E, por ultimo: "Eu te amo, mas não espere que eu apóie minha vida nisso, porque quando você for embora eu tenho que estar em pé e sobreviver"
Esse meu amor é algo além do que risível? Essas formas de amar com tantas limitações e sem nenhuma confiança? Então, nem amar eu sei? Que raios eu sei fazer então?
OK, saldo do dia: uma mulher de 35 anos que pra muito do básico acha que ainda tem 12, que não sabe fazer sexo, não sabe amar, não confia em quase ninguém, que edita suas verdades batendo no peito e dizendo saber amar, e dai ela mesma acredita nessas verdades, pra depois descobrir que não era nada daquilo, e que tá chutando pedra sobre pedra até que tudo se desfaça, pra poder começar outra vez, e dessa vez de verdade...
Dá medo.
O Ego e a minha mãe
Resolvi escrever até cansar. Até esgotar de falar de mim, até não ter nada que eu já não tenha dito. Mas meu ego é grande demais. (!) Uma vez li que a pessoa tímida é tão presunçosa que tem medo de errar porque acha que seu erro ficará ecoando por toda a eternidade e ninguém mais esquecerá. Engraçado. E real. Bem nessas.
Daí que minha mãe ficou doente, gravemente doente. Quase morreu.
Eu achava que não me importaria. Ela sempre me odiou mesmo!
Quer dizer...
Só entendi recentemente que ela sempre odiou a si mesma. Tanto, tanto, que nada bom podia sair dela. Nem os filhos. Ela tinha muito medo que as pessoas dissessem que ela não sabia educar filhos. Se orgulhava porque quando saíamos com ela, na rua ou na casa de alguém, não abríamos a boca, nem nos mexíamos do lugar. E todos diziam: que filhos educados você tem! E ela ficava feliz.
E éramos preparados pra uma guerra civil, "vou bater pro mundo não bater lá fora", e o que eu passei na infância nunca mais enfrentei em qualquer outra realidade, de tão "bem preparada" que fiquei.
E eu não podia ficar feliz por ter tirado nove e meio numa prova, porque minha obrigação era tirar 10. Do modo dela, queria que fôssemos nada menos que perfeitos, e como elogio acomoda a pessoa, por melhor que fosse o esforço em qualquer coisa, sempre tinha o erro que não tínhamos visto, e era aquele que precisava ser apontado. Fiquei mestre em sondar as expectativas alheias e tentar concretizá-las. E fracassar irremediavelmente, vez após vez. Uma sensação eterna de que nada do que eu fizesse jamais seria suficiente, não importa quanto nem por tanto tempo eu me esforçasse.
E hoje vejo que nada disso foi problema.
Sério.
Porque teve um momento em que eu decidi sozinha que as críticas e cobranças de perfeição da minha mãe não me fariam mais diferença, que ela mesma não me faria mais diferença, que teríamos uma relação pelo menos cordial, já que não posso deixar ela se aproximar muito, porque se ela consegue, mesmo ainda hoje, dá um jeito de me apontar o tamanho da inadequação que eu sou. Como quando foi ver a estréia do CENAS e fez um único comentário: que com aqueles pulos todos do final da peça eu deveria pelo menos ter emagrecido, mas nem assim.
Teve um momento em que isso já não tinha a força que tinha quando eu era criança.
Mas quando foi que eu comecei a repetir igualzinho essas coisas pra mim mesma, sem nem mesmo precisar mais da minha mãe pra isso? Quando foi que eu já não me importava que ela falasse fora, mas passei a repetir igualzinho, até com os mesmo tons, nos lugares mais inacessíveis de mim mesma?
Quando foi que o grande adversário passou a ser eu mesma, me cobrando a perfeição que eu jamais atingirei?
Tudo isso pensei nesses dias que minha mãe esteve doente. Eu sempre tive medo dela. Ela sempre fez questão de mostrar-se de uma forma assustadora, pra não perder o respeito.
E eis que de repente... ela estava ali, entubada, tão frágil quando uma folha de papel, sem conseguir sequer respirar... Tive dó. Ninguém merece. Mas, mais do que ter dó: a entidade MÃE não era nada mais que uma mulherzinha idosa e doente, merecedora de todo o meu carinho e compaixão. Era assim que a coisa toda terminava. No final, o resto todo não tem nada a ver com ela... Não mais. De repente eu estava livre de uma grande sombra que pairava sobre mim por toda uma vida. E aí descobri que a grande sombra não era ela, tadinha. Era eu, só eu! E, se sou eu, tá tudo na minha mão! Então comecei!
Daí que minha mãe ficou doente, gravemente doente. Quase morreu.
Eu achava que não me importaria. Ela sempre me odiou mesmo!
Quer dizer...
Só entendi recentemente que ela sempre odiou a si mesma. Tanto, tanto, que nada bom podia sair dela. Nem os filhos. Ela tinha muito medo que as pessoas dissessem que ela não sabia educar filhos. Se orgulhava porque quando saíamos com ela, na rua ou na casa de alguém, não abríamos a boca, nem nos mexíamos do lugar. E todos diziam: que filhos educados você tem! E ela ficava feliz.
E éramos preparados pra uma guerra civil, "vou bater pro mundo não bater lá fora", e o que eu passei na infância nunca mais enfrentei em qualquer outra realidade, de tão "bem preparada" que fiquei.
E eu não podia ficar feliz por ter tirado nove e meio numa prova, porque minha obrigação era tirar 10. Do modo dela, queria que fôssemos nada menos que perfeitos, e como elogio acomoda a pessoa, por melhor que fosse o esforço em qualquer coisa, sempre tinha o erro que não tínhamos visto, e era aquele que precisava ser apontado. Fiquei mestre em sondar as expectativas alheias e tentar concretizá-las. E fracassar irremediavelmente, vez após vez. Uma sensação eterna de que nada do que eu fizesse jamais seria suficiente, não importa quanto nem por tanto tempo eu me esforçasse.
E hoje vejo que nada disso foi problema.
Sério.
Porque teve um momento em que eu decidi sozinha que as críticas e cobranças de perfeição da minha mãe não me fariam mais diferença, que ela mesma não me faria mais diferença, que teríamos uma relação pelo menos cordial, já que não posso deixar ela se aproximar muito, porque se ela consegue, mesmo ainda hoje, dá um jeito de me apontar o tamanho da inadequação que eu sou. Como quando foi ver a estréia do CENAS e fez um único comentário: que com aqueles pulos todos do final da peça eu deveria pelo menos ter emagrecido, mas nem assim.
Teve um momento em que isso já não tinha a força que tinha quando eu era criança.
Mas quando foi que eu comecei a repetir igualzinho essas coisas pra mim mesma, sem nem mesmo precisar mais da minha mãe pra isso? Quando foi que eu já não me importava que ela falasse fora, mas passei a repetir igualzinho, até com os mesmo tons, nos lugares mais inacessíveis de mim mesma?
Quando foi que o grande adversário passou a ser eu mesma, me cobrando a perfeição que eu jamais atingirei?
Tudo isso pensei nesses dias que minha mãe esteve doente. Eu sempre tive medo dela. Ela sempre fez questão de mostrar-se de uma forma assustadora, pra não perder o respeito.
E eis que de repente... ela estava ali, entubada, tão frágil quando uma folha de papel, sem conseguir sequer respirar... Tive dó. Ninguém merece. Mas, mais do que ter dó: a entidade MÃE não era nada mais que uma mulherzinha idosa e doente, merecedora de todo o meu carinho e compaixão. Era assim que a coisa toda terminava. No final, o resto todo não tem nada a ver com ela... Não mais. De repente eu estava livre de uma grande sombra que pairava sobre mim por toda uma vida. E aí descobri que a grande sombra não era ela, tadinha. Era eu, só eu! E, se sou eu, tá tudo na minha mão! Então comecei!
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